O Inferno É Coisa de Outro Mundo…

Já dizia Sartre que o inferno são os outros. Eu vou além. O melhor empresário deste (e do outro) mundo é o Diabo. Não há empreendimento mais lucrativo que o Inferno. O Diabo é um empresário de visão, e deve estar orgulhoso dos resultados. Ora, num mundo movido a dinheiro, até o Capeta decidiu fazer um pé-de-meia. Se as religiões se agridem mutuamente dizendo que o Deus da religião “A” é melhor que o Deus da religião “B”, e vice-versa, como se vendessem o melhor produto da praça, nada mais justo que o Capeta, gente boa e esperto, também fizesse um caixa nesses tempos capitalistas.
O Capeta, conhecido por tantas alcunhas, sendo que a metade das que conheço eu já me esqueci, e, conseqüentemente, a sua quente colônia de férias eternas, não devem ser de todo ruim. Muito pelo contrário. Nunca tive o prazer (ou a falta de prazer, depende do seu ponto de vista) de conhecer o Diabo pessoalmente. Mas com certeza é um sujeito de bom gosto. Deve vestir roupas feitas sob medida, ter cabelereiro, manicure, pedicure e personal stylist 24 horas por dia, já que hoje, neste mundo tão superficial, imagem é tudo. E como ele vai vender o seu resort de veraneio eterno desarrumado, feio e maltrapilho? Nunca conseguiria comprar a alma do homem mais desesperado do mundo com um visual desleixado. Conseqüentemente, é provável que tenha um bom gosto sob todos os aspectos, da culinária ao refinado gosto cultural, até porque boa parte dos seus clientes é gente de posses, bem-sucedidos e muitas vezes bem-nascidos.
Quanto ao Inferno, com certeza não deve ser mais quente que o Rio de Janeiro no fim de dezembro, nem mais perigoso, até porque o Diabo, como bom anfitrião e empresário que é, já providenciou o melhor esquema de segurança deste e do outro mundo para seus clientes, gente influente na política, celebridades do mundo artístico, empresários que sempre figuraram entre os mais ricos do mundo, segundo a revista Forbes, fora outros tipos menos cotados. O Inferno deve ser quente em todos os sentidos: jogos ilícitos por aqui, como os cassinos (até porque rico não joga no bicho), por lá são liberados, as melhores negociatas do além estão por lá e as melhores mulheres também. Deu para perceber que o Inferno é um eterno programa do Amauri Jr, com gente rica, de sorriso e metade do corpo falso. Mulheres que chegam a 100 Km/h em 6 segundos e carros que fazem de tudo para arrumarem um marido rico, ou vice-versa. O Inferno é quase uma Ibiza, só que com um mar de água fervendo. Quanto ao Céu, deve ser uma eterna Quinta da Boa Vista no domingo, com famílias rolando pela grama, jogando aquela pelada esperta e comendo farofa, tudo ao mesmo tempo, lotado de gente pobre. O Céu é um domingo de sol com a família, o Inferno é uma noite de sexta-feira num inferninho de classe.
Digo mais uma vez: não há empreendimento mais lucrativo que o Inferno. Se os ricos vão para lá, mais dinheiro o nosso empresário do ano, o Diabo, ganha, até porque rico paga tudo à vista e com cartão. Coitado de Deus, que vende um terreno no Céu até por 120 vezes e ainda toma calote. Gente rica é outra coisa. O Capeta que é esperto. O céu é coisa de pobre.
Realmente o céu é coisa de pobre, Flávio.. mas que tem gente ficando rica às custas dele, ah isso tem.. O negócio de Deus é mais difícil de vender, mas ele parece ter um bom time de corretores na Terra. Ou as igrejas evangélicas não continuam a crescer sem parar?
Abração e parabéns pelo texto. Algumas inversões bem interessantes.