Afinal, Os Brasileiros Somos Passivos?

Central do Brasil, numa Sexta-Feira: Todos Indo Tomar um Méééééééééééé…
Uma dúvida persiste em ficar na minha cabeça nesse início de ano, graças a uma conversa com meu amigo Marcelo, que escreve (muito bem, por sinal) no blog Impostura: seria o brasileiro passivo? Eu realmente não sei muito o que pensar, mesmo que referências tanto para uma resposta positiva quanto para uma negativa existam aos montes. Marcelo disse que sim, que somos tão passivos que nossa independência política em relação a Portugal foi feita por um português – Dom Pedro I - e sem derramamento de sangue. Eu contraargumentei, com ressalvas, dizendo que nós estamos num momento de embriagez por conta da democracia, que nunca tinha sido tão abrangente, mas tão pouco valorizada. Disse ao Marcelo que o brasileiro só é engajado, ativo, quando a coisa está muito apertada para o nosso lado. E fiquei com essa questão na cabeça durante o resto do fim de semana. A primeira coisa que pensei, para tentar provar que o Marcelo estava generalizando um bocado, foi a seguinte: se quantidade de revoltas das classes menos favorecidas fosse motivo de uma atividade que visasse derrubar o status quo, a Jamaica seria um país de primeiro mundo. E todos nós sabemos que não é. A Jamaica foi a colônia mais rica do Império Britânico até o início do século XVIII, por conta da produção de açúcar, e, a exemplo do Brasil, onde tinha açúcar, tinha mão-de-obra escrava numa quantidade considerável. E na Jamaica eclodiram inúmeras revoltas de escravos. Isso porque não falei no Haiti, país dos “jacobinos negros”, que segue uma história ainda mais dramática. E tentei completar minha ideia pensando em movimentos de insatisfação ao longo de nossa história. Quebrei a cara. Digo, nem tanto, porque a minha ideia de que somos participativos quando a coisa começa a esquentar para nosso lado tinha procedência. Assim foi na própria independência, já que Dom Pedro I não a fez apenas por vaidade, e sim porque a classe dominante tupiniquim via seus privilégios comerciais, por conta da abertura do portos brasileiros às nações amigas (de urso, a Inglaterra), findando o pacto colonial, ameaçados. Assim foi também em nossa história recente com o movimento contra a ditadura, a luta pela anistia “ampla, geral e irrestrita” e as Diretas Já, nessa ordem cronológica.
Então meus amigos, pensei, pensei, tomei uma água, parei para respirar, pensei mais um pouco, e cheguei a uma conclusão pouco animadora, para mim e para meu amigo de letras Marcelo: somos um povo interesseiro, além de cordial. Já não basta o título de homem cordial, muito bem dado pelo grande Sérgio Buarque de Hollanda, de que o brasileiro é um homem que coloca o coração anos-luz a frente da razão, até quando precisamos usar a razão. Agimos quando nos interessa muito. Quando nos interessa, e digo mais, agimos de forma egoísta. Vejam os estatutos para idosos, crianças e adolescentes, de igualdade racial, que servem para nos separar ao invés de nos aglutinar sob as asas da nossa Carta Magna, ou as guaritas em bairros de classe média das grandes cidades, para dar proteção, ao invés de pedir mais competência às nossas autoridades, que por sinal, são eleitas por nós. Não precisei ir muito longe para dar exemplos. Você vê isso por aí. Aí vem a minha mente outra coisa que discuti com o Marcelo: nós estamos doidos para viver sob uma ditadura, isso porque ou a memória da ditadura ainda é muito recente, ou porque somos mesmo um povo passivo. Mas isso é coisa para outro texto.
Uma reflexão que fiz para além do que já conversamos, meu caro Flávio, é a seguinte: como estamos importando comportamentos norte-americanos demais de uns tempos pra cá, o interesseiro está deixando o cordial pra trás, já no fim do campo de visão.. basta ver como, tiro pela culatra, os próprios turistas têm sido tratados… Mas é uma discussão importante e continuaremos, com certeza.
Abração
Com certeza, Marcelo, é uma questão interessante essa que nos faz pensar em outra questão muito grave entre nós, brasileiros: a questão de imitar tudo que é ruim que os gringos fazem. As coisas boas ainda não aprendemos.
Abraço!