Os Marginais Marginalizados - Os TÃmidos
TÃmida, não?
Há um tempo atrás estava conversando com meus botões a respeito de um fato que aconteceu comigo há meses, mas que só agora caiu a ficha, e, partindo deste fato, espero chegar ao ponto que quero abordar neste texto. É o seguinte: estava eu numa entrevista de empregos. O entrevistador me pediu para listar as minhas cinco maiores virtudes e meus cinco maiores defeitos. E eu, sabendo que a tarefa seria um pouco árdua, já que é muito difÃcil para boa parte das pessoas (aproximadamente 99,98% delas) listar suas virtudes e defeitos, falei com o entrevistador, em tom de brincadeira, aproveitando que a entrevista se desenvolvia num clima tranqüilo, para ele ir lá fora e tomar um café, porque eu iria demorar, tamanha minha dificuldade em falar sobre eu mesmo, ainda mais numa entrevista de emprego. Pois bem, dito e feito: ele foi tomar um café. E eu fiquei sozinho na sala pensando nos meus prós e contras. A lista de virtudes eu consegui fazer rápido. Fugi das virtudes mais óbvias, como ser pontual ou ser um negro muito bonito (fato que ele poderia ter percebido se ele tivesse entrevistando um candidato a protagonista da novela das nove, por exemplo), mas os defeitos demoraram a surgir. Mas surgiram. Quatro. Faltava um. Quando faltava esse último defeito, o entrevistador volta do seu cafezinho, me perguntando se eu tinha terminado. Falei a verdade: que faltava um defeito, e que já tinha procurado o maldito nos bolsos da minha calça e da minha mochila (só que na mochila encontrei dez centavos, que sorte!), só não tinha procurado no paletó dele, que estava na cadeira, ou na bolsa da secretária, já que em bolsa de mulher a gente encontra tudo. De repente eu encontraria algum defeito, não da bolsa, mas um defeito meu perdido nessa galáxia perdida chamada “Bolsa de Mulher”. Foi quando ele me sugeriu botar que eu era tÃmido, já que ele tinha observado essa minha caracterÃstica. Então, eu, muito influenciável, ainda mais por pessoas desconhecidas, coloquei a minha timidez na lista e fui embora. O final dessa história? Eles me ligaram para mais uma ou duas entrevistas, mas preferi ficar no meu emprego atual, pelo menos até o final do ano (traduzindo: pensando no 13o!!!).
Até que hoje um dia desses caiu a ficha: será que ser tÃmido é defeito? Verdade, a timidez atrapalha em certos pontos. Paquerar, por exemplo. É muito difÃcil. Apesar de saber que o máximo que vai acontecer é a mulher te dizer um não, o tÃmido pensa que, além do não, ela vai bater nele com um taco de beisebol, mas não antes de sacar um spray de pimenta e colocar esse gostoso colÃrio nos olhos do nosso amigo tÃmido. Para os mais tÃmidos, como eu fui um dia, até ir na padaria comprar pão era difÃcil. Era um tal de pensar em cada palavra, que se a pessoa da padaria falasse alguma coisa fora do roteiro que eu tinha traçado na minha cabeça, acendia a luz vermelha de alerta. Não sabia improvisar. Mas melhorei um pouco. Hoje sou um tÃmido bem-resolvido.
É bom que as pessoas saibam que nem todo tÃmido é um manÃaco em potencial. Pelo menos 2% de nós não o são. Uma coisa que percebi foi que os tÃmidos quando têm a oportunidade, falam mais do que a minha irmã mais nova contando as novidades sobre a última micareta que ela foi (beijos Nata!). Os tÃmidos falam pelos cotovelos. Quando não falam, escrevem, e bem. Por trás daquele olhar meio perdido tem uma pessoa sensacional. Isso eu digo não é porque me considero tÃmido (apesar de, modéstia a parte, ser um cara sensacional em todos os sentidos), e sim porque conheço muitas pessoas tÃmidas que são sensacionais, muito mais interessantes do que quem fala pelos cotovelos e a cada semana têm um novo melhor amigo. Essas pessoas sim que estão meio perdidas.
O mais legal de ser tÃmido é que boa parte das pessoas te subestima, mas como o tÃmido tem um espÃrito de mineiro (o tal do “come quieto”), vai e se sai bem na maioria das coisas que se mete a fazer. Ser tÃmido é matar um leão por dia.
Mas mesmo assim, amigo tÃmido, depois desse humilde texto, ainda se sentir incomodado com o rótulo de tÃmido (que para alguns ser tÃmido é ser anti-social), diga que você não é tÃmido, diga que você é “seletivo crÃtico” ou “discreto”.
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Encontrei um ótimo texto sobre a timidez, escrito pelo Luiz Fernando VerÃssimo. Para quem quiser conferir, segue abaixo o link:
http://ainagaki.sites.uol.com.br/textos/timidez.htm
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