NadaCrônicas, 25

tamofu1

Ou ainda Confissões de Um Hipocondríaco

Tudo começou com um remédio para dor de cabeça. Sabe aquele remédio que quase não faz diferença, como o Fluminense? Pois é, tomei o de doses infantis dele. Mas o organismo foi criando resistência. A dor de cabeça foi aumentando, e as doses do remédio infantil também. Quando o remédio infantil não adiantava mais, comecei a tomar coisas mais fortes. E nesse meio caminho, comecei a tomar todo tipo de remédio: se falavam que tinha um surto de gripe, ia na farmácia e comprava aquele remedinho de vitamina A que dissolve na água. Efeverscente, não é isso? Pois é. Se meus amigos falavam que estavam indo mal na vida sexual, comprava a tal da pílula azul. Comecei cortando a pílula, pra não ir com muita sede ao pote, mas dependendo da qualidade da presa do dia, tomava umas 3. Com uísque, pra descontrair. Sou tímido. Se todos reclamavam de dor no joelho, eu comprava aquele remédio de cartilagem de tubarão (ou de golfinho, de baleia ou da orelha do Hollyfield que o Mike Tyson arrancou, não sei exatamente) que um apresentador perneta anuncia. Deve ser bom, porque se uma pessoa que tem só uma perna diz que toma, deve ser muito bom pro joelho, ou para a cartilagem da perna de pau. E assim eu fui tomando remédio para tudo. Mas o céu é o limite para um hipocondríaco, literalmente.

Não satisfeito, comecei a misturar remédios. Anticoncepcional com remédio contra calvície, remédio para aumentar a pressão sanguínea com remédio para diminuir a pressão sanguínea - para ver se minha pressão ficava na média - e outras misturas que nem uma criança de cinco anos recomenda. Em duas situações eu me dei muito mal: uma vez misturei remédio para dar mais disposição com remédio para dormir. Só sei que fiquei com metade do corpo ligadona e a outra bem relaxada. A outra vez foi quando misturei remédio para dormir com laxante. Os dois remédios surtiram efeito. O problema é que precisei comprar um colchão novo. O meu colchão ficou uma merda a partir daquele dia.

Mas eu sempre tomei remédio sem recomendação médica porque confio na indústria farmacêutica que faz aqueles comerciais com gente feliz, de olhos azuis, crianças saudáveis, falando que o remédio é uma maravilha e no final ainda dizem que persistindo os sintomas, recomenda-se procurar um médico. Médico não serve para nada mesmo. Xarope sim serve para tudo, desde dor na garganta até atropelamento.

 

 

 

One Response

  1. Flavio:
    Sua Carta de Amor já foi postada no Duelos.
    Valeu mesmo!
    Abração e ótima semana!

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