Memórias Infantis de Um Homem Infantil, 5

Cláudia. Esse era o nome dela. Era linda. Das minhas paixões platônicas foi a mais bonita, a que rendeu meus mais apaixonados poemas, e a maior esperança de eu vencer a timidez que vira e volta ainda me prejudica. Quando eu ficava do lado dela era mágico, eu sabia que não precisava indagar a existência de Deus, vida eterna, portão dourado, porque estava do lado de um anjo. Linda com seus cabelos negros cacheados, seus olhos castanhos, sorriso fácil (acho que foi a primeira que riu das minhas piadas sem graça!)… Ela era… Era…Linda.
Eu sentia que com ela podia ser diferente, porque do lado dela eu não me sentia menor, ela, diferente das outras, não parecia que estava num pedestal, mas vai saber, foi o destino que fez a gente seguir caminhos diferentes. Mas, mesmo assim, passados uns cinco ou seis anos que não a vejo, ainda olho com carinho as coisas que escrevi para ela, e que ela – feliz ou infelizmente, talvez ela não gostasse de poemas! - não viu. Mais do que o amor platônico “mais menos†(isso existe?) platônico, Cláudia foi uma musa daquelas. E uma das coisas que até hoje, anos – e alguns amores, platônicos ou não – passados, que eu tenho muito carinho e orgulho de ter escrito surgiu de uma gaveta numa tarde dessas, feito um convite. Um convite para lembrar de coisas boas. Aqui está:

Ao Meu Amor Platônico

Os seus olhos castanhos fascinam os meus
olhos tal qual hipnose, e eu dessa virose não tenho antídoto
Amo minha doença por ela ter o sorriso
mais belo, tão lindo e letal para um sujeito tímido

Não há vacina nem cura: meu amor ora melhora,
ora torna-me febril ao vê-la vindo, humilde graciosidade
proporcional aos meus sonhos… Incurável sempre e agora
Amo-te na saúde, doente terminal de felicidade

Se eu tiver que morrer agora que seja te amando,
para que a dor física seja ridícula frente ao amor platônico
e da loucura sã de te ver e fingir não te querer

O amor é forte a ponto de eu não estar suportando
essa doença perpétua do coração, meu padecer pouco lacônico
a ponto de amar-te e fingir não sofrer.

Rio de Fevereiro, 25 de setembro de 2004.

4 Responses

  1. Ainda me impressiono com sua capacidade para escrever. Já deveria estar acostumada. Continuo leitora fiel e constante, porque te ler é sempre uma surpresa. Rindo ou emocionando, sempre cumpre bem a missão de tocar o leitor.
    Parabéns.
    Felicidades sempre.

  2. Poxa, obrigado!
    É muito bom saber que as coisas que escrevo aqui agradam. Essa é a força que preciso pra continuar nessa caminhada tão quixotesca, sem direito a Sancho Pança. Mas tá manero, vale a pena.
    Obrigado!

  3. Existe uma série de poemas do Drummond que conversam com a obra de Cervante, assim como alguns quadros de Portinari. Você iria gostar deles. Em relação a agradar, acredito que você agradaria muito mais se fosse amplamente divulgado. Pra ser um grande escritor, só falta um investimento, uma editora, sei lá.
    Drummond, o grande mestre, era cronista e poeta como você. Você, além disso, é bom músico, compositor, professor, e costumava ser um bom amigo também. Provavelmente ainda é para aqueles que considera.
    Não ache que estou te elevando à categoria de Drummond não, você não é suficientemente gauche. Mas é uma grande escritor. Só comparei o toque quixotesco.
    Não existe literatura sem leitor.
    Enquanto você escrever, saiba que terá sempre essa humilde leitora.
    Abraços.

  4. Olha, essa questão de divulgação é o que me dá mais dor de cabeça… Na internet você tem que ficar enchendo o saco de outros caras para que eles coloquem seu link no blog deles. Até faço isso quando encontro um blog legal, mas não tenho tanta paciência nem tempo para ficar o dia todo nessa troca de favores. Quanto a questão de editoras, maiores investimentos, penso que tudo ocorre com o tempo. Por mais que vocês 13 - o anão que acompanhava o blog morreu - digam que sou bom, não me sinto preparado - ainda! - para vôos mais altos. Ou até esteja, mas talvez só falta um empurrão para frente, e que não seja para que eu pule do precipício.
    Quanto aos elogios, só faltou você falar que lavo, cozinho, tomo conta das crianças e dou conta das mulheres em horas de necessidades sexuais tal qual um vibrador multiuso! Estou ruborizado, obrigado.

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