Archive for the ‘Aprenda Com Quem (não) Sabe’ Category

Eu e Meus Óculos Escuros

Uai bi béqui: Ele é Schwarzenegger, e eu, Schwarzeneguinho…

Até pouco tempo atrás, eu não gostava muito de óculos escuros. Sei lá, implicância minha, achava que óculos escuros me faziam parecer um besouro com um pouco mais que 1,80 m. Mas eu vi que, se eu quisesse enxergar alguma coisa no sol que estava fazendo nesse verão senegalês daqui do Rio, eu teria que comprar uns óculos escuros. Comprei. Achei um que eu acabei parecendo o Exterminador do Futuro, versão negra, subdesenvolvida e resumida. Mas o que interessa é que os óculos não só me caíram bem como me fizeram mudar radicalmente a minha opinião sobre os óculos escuros. São esconderijos que cabem no bolso! Eu, que sou tímido, sempre tive dificuldade de olhar desconhecidos nos olhos. Agora olho numa boa, só falta fazer careta para eles. Fiquei com um ar meio perigoso, mas perigoso no sentido “ei, gatinha, quer descobrir o que tem de bom por trás desses óculos?â€, não o perigoso “ei, madame, perdeu, isso é um assalto!â€, sabe? Até para dar aquela olhada sacana para as moças na rua os óculos servem. Eu olho e elas não percebem. Ou percebem, sei lá. Depende se elas estão indo ou vindo.

NadaCrônicas, 34

Ou Ainda Óculos

- Olha, pode parecer loucura, e acho que é, eu tava lá do outro lado te olhando e vi que você também me dava umas olhadas, e resolvi vir aqui falar com você. Acho que você é a mulher da minha vida. N-não, deixa eu falar, por favor, sou tímido e a pior coisa que se pode fazer a um tímido é interrompê-lo quando ele está falando, frustra legal. Olha, eu sei que você saiu pra se divertir e a última coisa que você quer é ser importunada por um sujeito chato como eu. Juro que eu vou até embora depois de falar com você, se você quiser que eu vá, claro. M-mas olha – ai, to até suando frio! – eu vi que você estava sozinha e tomei coragem de vir aqui falar contigo. Sabe, tem que ser muito corajoso pra tentar alguma coisa com uma mulher tão linda! Eu só posso estar maluco! Mas o-olha, eu só queria uma companhia legal essa noite, não precisa ter beijo na boca, de ir para os “finalmente”, podemos só conversar, sei lá, eu até tirei os óculos para parecer mais atraente, mas não preciso nem de óculos para reparar nesse seu lindo – peraí, deixa eu colocar os óculos de novo! – reparar no seu lindo… Bigode?
- É, rapaz, acho que você tava passando cantada na pessoa errada…
- D-desculpa! É que eu to nervoso, tirei os óculos para …
- Eu sei, eu sei, é a morena aqui atrás, né?
- É que – caraca! – você tem cabelo grande também… Mas por que você não falou nada? Não vai me dizer que estava gostando?
- Até estava, mas eu gosto de mulher também.
- Desculpa! Deixe-me passar para falar com ela… Oi, tudo bem? Olha, pode parecer loucura…

Resoluções de Ano Novo!

 

Eu sei que todo ano é o mesmo papo, prometo um monte de coisa e no fim do ano eu vejo que não fiz nada. Mas esse ano vai ser diferente, sei lá, estou sentindo um clima favorável, um amor no coração, ou o álcool me fazendo ficar meio emotivo e chapado, não necessariamente nessa ordem. Que seja. Mas eu só vou prometer o que posso cumprir.

Por exemplo, esse ano vou enfim cuidar do meu corpo. Vou malhar, fazer exercícios, essas coisas. Mas não vai ser agora em janeiro, nem em fevereiro, março, agosto ou outubro. Só lá para o fim de novembro, para dar tempo de ficar em forma para o próximo verão, até porque para esse verão não dá mais tempo.

Juro que dessa vez paro de fumar, mas vai ser aos poucos. Agora só fumo depois do sexo, ou quando eu estiver nervoso, ou quando estiver buscando alguma idéia legal que vá mudar minha vida, ou ainda quando quero dar uma relaxada ou só quando estiver de bobeira. Tirando essas horas, nada de cigarro!

Quanto ao álcool, eu estou determinado a parar de beber demais. Vou beber na medida. Na medida do copo, com direitos a várias repetições. Odeio desperdício.

Também vou ser mais sincero, exceto na hora de falar aquelas mentirinhas sociais.

Vou parar de falar mal das pessoas, pelo menos na frente delas. Isso facilita na hora de arrumar menos briga, que é outra promessa para o ano novo.

Tentarei ser mais tolerante com as diferenças entre as pessoas. Chega de chamar os homossexuais de viadinhos, os negros de gorilas, os brancos de bronzeado de palmito, os gordos de rolha de poço, o pessoal do candomblé de macumbeiros, o pessoal do reggae de maconheiros, os sem-pernas de cotó ou o PT de comunista.

Vou tentar fazer uma coisa que vai fazer minha mãe ficar orgulhosa, vou parar de falar a caralhada de palavrão que falo desde a adolescência. É um vício da porra que tenho. Vou parar antes que essa mania foda com minha vida social.

Vou também ajudar quem precisa. Vou parar de rir da cara deles. Coitados, esse povo não tem culpa de tanta desgraça que acontece na vida deles.

É…Esse ano promete!

 

Curso Básico de Educação, Segundo um Ogro - Capítulo 1

Nada vem me frustrando tanto quanto os dias que eu tento tirar um dia para mim. Como vocês já devem ter percebido, minha vida depois de entrar no magistério do estado do Rio de Janeiro virou uma bagunça, e olha que minha vida antes de eu entrar para o estado já não era tão organizada. Mas o lado positivo é que estou trabalhando no que gosto. Não posso reclamar muito. E nem estou reclamando do trabalho de professor, que confesso, é cansativo. Mas estou chateado justamente com os dias livres.
Não, eu não virei um workaholic. Muito pelo contrário. Eu tento trabalhar bem – e rápido! - para poder descansar o máximo de tempo que posso. E assim foi essa semana. Por uma série de fatores e coincidências, consegui um dia inteirinho livre. Livre mesmo. Sem nada para fazer. E pretendia aproveitar a oportunidade para dormir feito um porco obeso (mesmo sem saber como um porco obeso dorme). Pois é, PRETENDIA. Sabe quando as coisas tem tudo para dar certo e surgem coisas que tentam fazer que tudo vá por água abaixo? Foi exatamente isso que quase aconteceu. Quase. Quase porque tive que usar da minha ignorância para alcançar meus meios. E assim o fiz. Fingi que não escutei o que falaram comigo, desliguei telefone na cara dos outros, até gritei uns palavrões para pessoas que há muito tempo mereciam um coice daqueles. Sinto-me leve como uma pena, uma pena de 70 quilos. Agora sim sou um homem descansado. Tudo que um pouco de uma educação digna de um ogro não resolva. Agora me dêem licença, acho que vou dormir mais um pouquinho, porque amanhã o dia vai ser movimentado, e o ogro vai ter que voltar a ser um príncipe. Uma pena.

Sobre Desistir e Perder

Hoje sei a diferença entre desistir e perder. Até pouco tempo atrás parecia que as duas palavras caminhavam de mãos dadas. Mas não andam. Não pode existir vergonha de perder. Todos somos passíveis de erros, não existem pessoas invencíveis. Talvez existam pessoas mais fortes, isso sim. Mas mesmo essas pessoas mais fortes podem perder um dia, mesmo que elas vejam que elas não tem esse direito. Mas até elas tem. Com a derrota a gente baixa a bola, repensa as estratégias e continua a caminhada. É o caminho: caiu? Levante. Caiu mais uma vez? Levante de novo. Simples assim.
Já desistir, não. Desistir por desistir é ter que carregar uma eterna derrota nas costas e não enxergar esse fato, falar que as coisas são assim mesmo e ponto final. Só isso.
Por isso, lute. Mesmo que tenha 1% de chances, mas lute. Não desista sem tentar. Sei que esse papo é mais antigo do que andar para a frente, mas é a mais pura verdade. Lute. Lute e tenha um sonho tranqüilo.

NadaCrônicas, 27

Ou Ainda A Verdade Dói

A verdade, meus caros amigos, a verdade. Sinto lhes informar, mas a verdade, na verdade, não existe. É sério. Se ela existisse, ninguém a suportaria. Para isso existe a mentira. Ou você imagina um diálogo como este?

- Amor?
- Hum.
- Você me ama?
- Por quê?
- Ai, sei lá, você me ama?
- Depende.
- Como assim?
- Olha, tem horas que te amo na cozinha, tem horas que te amo calada, tem horas que te amo na cama, fazendo sexo, apesar da minha ejaculação precoce, ou dormindo, mesmo… E claro, tem horas que eu me pergunto porque que eu te conheci. Preciso parar de beber. Merda. Mas não se preocupe, só me arrependo algumas vezes, quando você insiste para a gente tentar terapia de casal, que, na minha humilde opinião, acho coisa de viado, ou fica me dando indireta para arrumar um emprego praquele seu sobrinho que não quer nada da vida, ou ainda aquela maldita ideia de passar o Ano Novo com a jararaca da sua mãe e a cobrinha que é a sua irmã, velha encalhada, ou quando me faz perguntas idiotas, como “amor, estou gorda?†ou “amor, você me ama?â€, só nessas vezes que me dá vontade de mandar para um lugar aonde não bata Sol, como o Pólo Norte no inverno. Fora isso, eu te amo.
- Cruzes!
- Sério.
- Precisa ser tão grosso?
- Depende.
- Como assim?
- Você mesma me disse que eu preciso sempre te falar a verdade.
- Você já escutou falar de “mentirinhas sociais�
- Sim.
- Então por quê não as usa de vez em quando, seu grosso?
- É porque…sabe como é, você me conhece, eu não sei mentir direito. Baleia.
- Careca.
- Te amo.

Claro, um diálogo como esse terminaria com alguns palavrões, uma facada, e uma bela manchete de jornal naqueles jornais de gosto duvidoso (jornalistas, piores que advogados…) como “Baleia não aguenta a verdade e mata marido carecaâ€, mas eu resolvi dar um desfecho mais, er, humano. Então meu caro, antes de falar da verdade, aprenda a mentir um pouco. Tem gente que mente e ganha milhões, e a gente nessa de falar a verdade, somente a verdade, vai vivendo. Minto. Sobrevivendo.

NadaCrônicas, 25

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Ou ainda Confissões de Um Hipocondríaco

Tudo começou com um remédio para dor de cabeça. Sabe aquele remédio que quase não faz diferença, como o Fluminense? Pois é, tomei o de doses infantis dele. Mas o organismo foi criando resistência. A dor de cabeça foi aumentando, e as doses do remédio infantil também. Quando o remédio infantil não adiantava mais, comecei a tomar coisas mais fortes. E nesse meio caminho, comecei a tomar todo tipo de remédio: se falavam que tinha um surto de gripe, ia na farmácia e comprava aquele remedinho de vitamina A que dissolve na água. Efeverscente, não é isso? Pois é. Se meus amigos falavam que estavam indo mal na vida sexual, comprava a tal da pílula azul. Comecei cortando a pílula, pra não ir com muita sede ao pote, mas dependendo da qualidade da presa do dia, tomava umas 3. Com uísque, pra descontrair. Sou tímido. Se todos reclamavam de dor no joelho, eu comprava aquele remédio de cartilagem de tubarão (ou de golfinho, de baleia ou da orelha do Hollyfield que o Mike Tyson arrancou, não sei exatamente) que um apresentador perneta anuncia. Deve ser bom, porque se uma pessoa que tem só uma perna diz que toma, deve ser muito bom pro joelho, ou para a cartilagem da perna de pau. E assim eu fui tomando remédio para tudo. Mas o céu é o limite para um hipocondríaco, literalmente.

Não satisfeito, comecei a misturar remédios. Anticoncepcional com remédio contra calvície, remédio para aumentar a pressão sanguínea com remédio para diminuir a pressão sanguínea - para ver se minha pressão ficava na média - e outras misturas que nem uma criança de cinco anos recomenda. Em duas situações eu me dei muito mal: uma vez misturei remédio para dar mais disposição com remédio para dormir. Só sei que fiquei com metade do corpo ligadona e a outra bem relaxada. A outra vez foi quando misturei remédio para dormir com laxante. Os dois remédios surtiram efeito. O problema é que precisei comprar um colchão novo. O meu colchão ficou uma merda a partir daquele dia.

Mas eu sempre tomei remédio sem recomendação médica porque confio na indústria farmacêutica que faz aqueles comerciais com gente feliz, de olhos azuis, crianças saudáveis, falando que o remédio é uma maravilha e no final ainda dizem que persistindo os sintomas, recomenda-se procurar um médico. Médico não serve para nada mesmo. Xarope sim serve para tudo, desde dor na garganta até atropelamento.

 

 

 

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