Archive for the ‘Cenas (In)Comuns’ Category

NadaCrônicas, 39

Ou Ainda Tá Caído!

-    Rapaz, eu não sei o que aconteceu.
-    O quê que houve?
-    Poxa, sei lá, ele ta meio caído ultimamente, eu to preocupado com isso.
-    Como assim, caído, cara? Você não tem idade para isso não!
-    E por um acaso tem idade para isso acontecer?
-    Ué, é até normal ele perder um pouco da vitalidade, do brilho lá pros 40, 50 anos.
-    Mesmo assim, eu o queria sempre em pé.
-    Ta maluco, rapaz? O que as pessoas vão pensar de você se virem ele sempre em pé?
-    Vão pensar “esse cara é sagaz!”, mas com ele caído eu sinto o pessoal até rindo de mim. Estou me sentindo impotente, cara! Poxa, justo eu, que trato dele com tanto carinho, não deixo ninguém tocar nele…
-    Você é um maluco, isso sim! Se dependesse de mim, quem quisesse colocar a mão eu deixaria na hora! Mas que seja, isso não me importa. Você tem passado alguma coisa nele?
-     Tenho passado um shampoo, mas o creme acabou.
-    Que creme?
-    Porra, cara, que creme! Creme pra cabelo! Creme de cabelo para o cabelo, ué! Preciso desse Black Power impecável, as mulheres adoram meus cachos.
-    Cabelo?
-    É! Por quê? Você estava pensando em quê?
-    Eu? Deixa pra lá.

Toda Poética de Pegar Um Busum no Rio

bus-copy

Tira afanada descaradamente do ótimo Ryotiras (www.ryotiras.com)

Desde pequeno pego ônibus. E não é que eu ame andar de ônibus, eu, obviamente, me acostumei em ir aos lugares de ônibus (eu sei, eu sei, ser pobre é uma desgraça). Como tudo tem seu lado bom na vida (até pegar ônibus, desde que não seja o lado do ônibus em que o sol esteja castigando), até que é divertido. Ver as paisagens, os contrastes da cidade, as moças bonitas (e as que não são bonitas também, coitadas!), as pessoas com seu vai-e-vem normal de uma cidade grande, essas coisas. Eu sei, é uma visão meio poética. Mas vocês se enganam se acharem que eu só sou elogios aos ônibus cariocas.
Para começar, o preço do ônibus. Tem horas em que penso que eles tinham que cobrar metade da passagem, porque os anos passam e os ônibus diminuem de tamanho e o número de passageiros só aumenta. Então imaginem, três pessoas num lugar onde cabe uma. Uma criança, das pequenas, naturalmente. Ainda tem os motoristas que fazem do simples ato de pegar um ônibus um esporte olímpico. Se Usain Bolt fosse carioca, ele faria os 100 metros em seis segundos, porque os motoristas, imbuídos do espírito de deixar o carioca em boa forma, param o ônibus um pouco à frente dos pontos de ônibus. É coisa pouca, uns 50, 100 metros. E todo mundo sai correndo atrás do ônibus, seja jovem, idoso, cadeirante ou perneta. É muito bonito ver essas pequenas coisas na nossa rotina une pessoas tão diferentes. E é a maior felicidade quando esses ônibus fazem um favor a esse povo todo e param, porque desconfio que as empresas de ônibus devem oferecer prêmios para o motorista mais rápido do dia, e o prêmio deve ser muito bom, já que todos estão imbuídos deste espírito meio Fórmula Um.
Mas, mesmo assim, pagando o preço de andar num ônibus de primeiro mundo e se sentir não raro num pau-de-arara, até que andar de ônibus tem algo de bom, só que eu, infelizmente, ainda não descobri bem o que é. Só sei que para quem não tem sua própria Mercedes, tem que se contentar em pegar a Mercedes coletiva. Paciência, baixa renda!

Cenas (In)Comuns, 2

Para aí, cidadão.
- Quem, eu?
- É.
- O que houve, seu guarda?
- Deixa eu ver a documentação do carro.
- Ih, seu guarda, dá não.
- Por quê?
Esse carro não é meu, é emprestado, e nem tenho carteira ainda.
- Que bonito, hein! Sai do carro! E essa lata de cerveja vazia dentro do seu carro?
- É, seu guarda, eu admito, eu tava bebendo enquanto bebia.
- E pelo menos a uns 30 km/h acima do permitido. Você gosta de confusão, hein garoto!
- Mas seu guarda, a gente pode resolver isso.
- Como assim, rapaz?
Aceita um dinheiro para a cervejinha?
- Você está querendo me subornar, rapaz?
- Sabe, “subornar” é uma palavra muito forte. Diria que é uma “ajuda de custo” pelo seu trabalho bem feito.
- Você pensa que todos policiais são corruptos?
Não é questão de corrupção, seu guarda, é fazer uma vista grossa. Me libera que prometo pro senhor que nunca mais sou pego numa blitz, não atropelo velhinha, nem xingo no trânsito.
- Rapaz, você ta fazendo um juízo errado dos policiais…
- Que absurdo, seu guarda! Você não vai aceitar suborno? Acho que isso vai custar seu emprego! No Brasil é quase como violar a Constituição! Chama seu superior que eu tenho uma queixa para levar a ele! Absurdo, não aceitar suborno, ainda mais no Brasil…

Cenas (In)Comuns, 1

- Amor, eu preciso falar com você.
- O que ouve, amor?
Sabe, não sei se te amo mais.
- Mas…
Eu sei, eu sei, querido, você é tão perfeito! Você não faz nenhuma cagada, não me bate, guarda tudo direitinho, troca o futebol com os amigos para discutir a relação, não deixa o banheiro todo molhado depois de tomar banho, não bebe de cair de tão bêbado, até minha mãe gosta de você, e você gosta dela!
- É por isso, por ser tão bom?
- Sei que é difícil de entender, mas é isso. Eu preciso de um cafajeste. Além do mais… Peraí, agora que to vendo, de quem são essas crianças que estão junto contigo?
- São meus filhos fora do nosso casamento.
- Você me traiu, seu safado? Nós temos quase quinze anos de casados e você me faz uma coisa dessas a essa altura do campeonato?
- Desculpa, mas não resisto a um rabo de saia.
Te amo!

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