Archive for the ‘Comportamento’ Category

Cenas (In)Comuns, 2

- Para aí, cidadão.
- Quem, eu?
- É.
- O que houve, seu guarda?
- Deixa eu ver a documentação do carro.
- Ih, seu guarda, dá não.
- Por quê?
- Esse carro não é meu, é emprestado, e nem tenho carteira ainda.
- Que bonito, hein! Sai do carro! E essa lata de cerveja vazia dentro do seu carro?
- É, seu guarda, eu admito, eu tava bebendo enquanto bebia.
- E pelo menos a uns 30 km/h acima do permitido. Você gosta de confusão, hein garoto!
- Mas seu guarda, a gente pode resolver isso.
- Como assim, rapaz?
- Aceita um dinheiro para a cervejinha?
- Você está querendo me subornar, rapaz?
- Sabe, “subornar†é uma palavra muito forte. Diria que é uma “ajuda de custo†pelo seu trabalho bem feito.
- Você pensa que todos policiais são corruptos?
- Não é questão de corrupção, seu guarda, é fazer uma vista grossa. Me libera que prometo pro senhor que nunca mais sou pego numa blitz, não atropelo velhinha, nem xingo no trânsito.
- Rapaz, você ta fazendo um juízo errado dos policiais…
- Que absurdo, seu guarda! Você não vai aceitar suborno? Acho que isso vai custar seu emprego! No Brasil é quase como violar a Constituição! Chama seu superior que eu tenho uma queixa para levar a ele! Absurdo, não aceitar suborno, ainda mais no Brasil…

Resoluções de Ano Novo!

 

Eu sei que todo ano é o mesmo papo, prometo um monte de coisa e no fim do ano eu vejo que não fiz nada. Mas esse ano vai ser diferente, sei lá, estou sentindo um clima favorável, um amor no coração, ou o álcool me fazendo ficar meio emotivo e chapado, não necessariamente nessa ordem. Que seja. Mas eu só vou prometer o que posso cumprir.

Por exemplo, esse ano vou enfim cuidar do meu corpo. Vou malhar, fazer exercícios, essas coisas. Mas não vai ser agora em janeiro, nem em fevereiro, março, agosto ou outubro. Só lá para o fim de novembro, para dar tempo de ficar em forma para o próximo verão, até porque para esse verão não dá mais tempo.

Juro que dessa vez paro de fumar, mas vai ser aos poucos. Agora só fumo depois do sexo, ou quando eu estiver nervoso, ou quando estiver buscando alguma idéia legal que vá mudar minha vida, ou ainda quando quero dar uma relaxada ou só quando estiver de bobeira. Tirando essas horas, nada de cigarro!

Quanto ao álcool, eu estou determinado a parar de beber demais. Vou beber na medida. Na medida do copo, com direitos a várias repetições. Odeio desperdício.

Também vou ser mais sincero, exceto na hora de falar aquelas mentirinhas sociais.

Vou parar de falar mal das pessoas, pelo menos na frente delas. Isso facilita na hora de arrumar menos briga, que é outra promessa para o ano novo.

Tentarei ser mais tolerante com as diferenças entre as pessoas. Chega de chamar os homossexuais de viadinhos, os negros de gorilas, os brancos de bronzeado de palmito, os gordos de rolha de poço, o pessoal do candomblé de macumbeiros, o pessoal do reggae de maconheiros, os sem-pernas de cotó ou o PT de comunista.

Vou tentar fazer uma coisa que vai fazer minha mãe ficar orgulhosa, vou parar de falar a caralhada de palavrão que falo desde a adolescência. É um vício da porra que tenho. Vou parar antes que essa mania foda com minha vida social.

Vou também ajudar quem precisa. Vou parar de rir da cara deles. Coitados, esse povo não tem culpa de tanta desgraça que acontece na vida deles.

É…Esse ano promete!

 

Mais Uma Vez, O Mesmo Papo de Sempre…

Tenho certeza absoluta que as opiniões que mostro por aqui estão muito longe de serem novidades, até porque nunca pretendi descobrir a roda ou o fogo. Mas tem coisas que são engraçadas: a medida que elas são repetidas, elas cada vez mais são esquecidas. E assim é com a nossa política, que é apenas uma espécie de microcosmo da sociedade brasileira, que prega o bem estar do indivíduo, mesmo que tenha que pisar em outras pessoas para alcançar o topo. De nada adianta reclamarmos que os políticos são isso ou aquilo se nós somos os verdadeiros calhordas. Quanto a eles, eles são apenas reflexos da sociedade brasileira, com poder de fazer praticamente o que bem entendem e sem temer uma punição, pois o próprio sistema – jurídico, eleitoral, entre outras esferas - os ajuda. Ainda bem que ninguém me pergunta o que vai acontecer, porque penso que mais uma vez – e infelizmente é uma coisa que durará muito tempo – vai acontecer absolutamente nada. Vão pegar os peixes pequenos para dizer que a impunidade não venceu, mas a impunidade vem vencendo desde que Cabral pisou na Terra dos Papagaios. E não importa a maneira de carregar o dinheiro, seja malote, carta, pombo-correio, aviãozinho de papel, mala, cueca, meia. Se nós não repensarmos o que queremos para o Brasil, ao invés de que esperamos do Brasil, a coisa vai ficar do jeito que está, porque pior não tem como ficar.
E parece que está meio fora de moda fazer pressão nos políticos, até porque manifestações minimamente sérias não parecem com a balada do fim de semana.
Ano que vem tem eleições. Haja paciência.

Curso Básico de Educação, Segundo um Ogro - Capítulo 1

Nada vem me frustrando tanto quanto os dias que eu tento tirar um dia para mim. Como vocês já devem ter percebido, minha vida depois de entrar no magistério do estado do Rio de Janeiro virou uma bagunça, e olha que minha vida antes de eu entrar para o estado já não era tão organizada. Mas o lado positivo é que estou trabalhando no que gosto. Não posso reclamar muito. E nem estou reclamando do trabalho de professor, que confesso, é cansativo. Mas estou chateado justamente com os dias livres.
Não, eu não virei um workaholic. Muito pelo contrário. Eu tento trabalhar bem – e rápido! - para poder descansar o máximo de tempo que posso. E assim foi essa semana. Por uma série de fatores e coincidências, consegui um dia inteirinho livre. Livre mesmo. Sem nada para fazer. E pretendia aproveitar a oportunidade para dormir feito um porco obeso (mesmo sem saber como um porco obeso dorme). Pois é, PRETENDIA. Sabe quando as coisas tem tudo para dar certo e surgem coisas que tentam fazer que tudo vá por água abaixo? Foi exatamente isso que quase aconteceu. Quase. Quase porque tive que usar da minha ignorância para alcançar meus meios. E assim o fiz. Fingi que não escutei o que falaram comigo, desliguei telefone na cara dos outros, até gritei uns palavrões para pessoas que há muito tempo mereciam um coice daqueles. Sinto-me leve como uma pena, uma pena de 70 quilos. Agora sim sou um homem descansado. Tudo que um pouco de uma educação digna de um ogro não resolva. Agora me dêem licença, acho que vou dormir mais um pouquinho, porque amanhã o dia vai ser movimentado, e o ogro vai ter que voltar a ser um príncipe. Uma pena.

(in)Segurança Feminina!

Penso que o Angeli conseguiu explicar nesse quadrinho a questão da segurança feminina e da sensibilidade masculina melhor do que meu texto… 

Uma das poucas coisas que eu tenho certeza que vou morrer sem saber é o porque das mulheres serem tão indecisas. É um tal de “talvezâ€, de “seâ€, de “seráâ€, que deixa qualquer homem maluco. Claro, não estou falando que todas as mulheres são assim, tem um número considerável delas (0,2%, e diminuindo) que apertam o famigerado botão do “foda-se†e tudo acaba bem. Também não posso dizer, como se fosse uma verdade absoluta, que os homens são mais decididos. Somos bem medrosos, mas por questões da natureza e sociais, temos sempre que mostrar o contrário. Mas a indecisão das mulheres é uma coisa que me preocupa algumas vezes, mas não deixa de me fascinar.
E me fascina, sim. Tanto que se eu não gostasse, eu procuraria me relacionar amorosamente com homens. Mas como não gosto de ver ou tocar – ou ser tocado por - pênis alheios, prefiro as mulheres. Mesmo que elas inventem mil fantasmas em torno do simples ato de dizer sim ou não e demorem três meses para responder, eu amo as mulheres e vou morrer amando.
Mas até que pensando um pouco melhor, até que entendo um pouco as mulheres. Nós homens inspiramos tanta confiança como uma zaga formada pelo Junior Baiano e o Odvan. 

A Nossa Dependência do Celular

Não é feitiçaria (é um elástico!), é tecnologia!

Todos nós sabemos a importância que o celular tem na vida de quem tem um. Muitos deles, além de fazer e receber chamadas (isto é, o mínimo que esperamos de um telefone), mandam mensagens de textos, tocam músicas, tiram fotos, tomam conta das crianças, fatiam, cortam, lavam e passam e outras inúmeras tarefas. E uma coisa que venho notando também é que o celular tomou o lugar do relógio de pulso, mas fugindo da obviedade de que o celular – olha só que novidade! – também tem relógio. Relógio, despertador, agenda, calendário, nome, CPF, paga imposto de renda e tem time do coração.
O engraçado é que parei de usar o relógio de pulso por conta de um impulso meio anarquista. O relógio é o aparelho mais eficaz no domínio do homem (ler “A Revolta dos Relógiosâ€, deste autor que vos fala, em breve na livraria mais próxima da sua casa. Ou não). Lembro que foi como se eu tivesse me livrado dos grilhões da opressão, tal qual um Zumbi, versão classe econômica e magrela. Enfim, a partir do momento que me “libertei†da “ditadura do relógioâ€, não me preocuparia nunca mais se estou adiantado ou atrasado para algum compromisso, até porque, se estivesse adiantado, tudo bem. Caso contrário, paciência. Só que o celular tomou o lugar do relógio de repente. Não são poucas pessoas que morrem por terem ficado uma horinha sem celular. Eu, apesar de ter celular, se eu o esqueço em casa – o que acontece com uma certa frequencia - , não é o fim do mundo. É até um alívio. O problema é quem me liga, já que se não atendo o maldito do celular, a pessoa pensa que ou morri, ou fui abduzido por extraterrestres fêmeas com a bunda na frente do corpo sedentas por sexo (uma pena…), ou que fui sequestrado ou ainda que sequestrei alguém (ou os dois!) e por aí vai.
O ponto é: reparem só nas pessoas ao seus redor que usam celular. Se veem que ninguém as ligou, repare na cara de tristeza. Se perderam uma ligação, então, é caso digno de tragédia grega. Por isso que às vezes penso que as máquinas estão perto de escravizar a gente. Hollywood às vezes acerta.

NadaCrônicas, 28

Ou Ainda O Origami Ou Talvez O primeiro Passo Para Deixar de Ser Frouxo

(Nada melhor do que arrumar a casa e escrever um texto sobre…arrumar a casa)

Penso que o ato de arrumar o quarto é comparável ao de tentar dar um rumo na vida. A gente vai mexendo em coisas que a gente nem imaginava que ainda existiam e vê se elas ainda servem para a gente ou não. São mais que quinquilharias. São lembranças. Boas e ruins. As boas a gente guarda com todo carinho num cantinho do armário, numa caixa escondida a sete chaves. Quanto às lembranças ruins, depende. Temos que guardá-las só na cabeça - para não cairmos em futuras armadilhas da vida -, mas temos que deixar nossos fantasmas a uma distância bem considerável de nós, sob a pena deles sempre estarem por perto para nos assustar. O que nos faz lembrar fisicamente esses fantasmas, temos que jogar fora, como um ritual de passagem.
E foi assim com aquele origami. Um origami de um coração. Que nunca foi meu. O coração de papel na história na verdade foi o meu, que se desmanchou jogado em uma poça de lágrimas de mais um amor perdido. Não valia a pena eu guardar uma coisa que não era - e penso que jamais será - minha, por mais que eu tivesse lutado e desejado que aquele coração fosse meu.
Olhei para dentro de mim. Vi que o meu coração de papel foi remendado a muito custo com um restinho de Cola Polar que eu não usava desde meu sexto ano. Ele cansou de remendos e maus-tratos. E lá foi-se o tal do origami para o lixo. Um origami que nunca foi meu. E continuei arrumando meu quarto.

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