Archive for the ‘Crônica’ Category

NadaCrônicas, 39

Ou Ainda Tá Caído!

-    Rapaz, eu não sei o que aconteceu.
-    O quê que houve?
-    Poxa, sei lá, ele ta meio caído ultimamente, eu to preocupado com isso.
-    Como assim, caído, cara? Você não tem idade para isso não!
-    E por um acaso tem idade para isso acontecer?
-    Ué, é até normal ele perder um pouco da vitalidade, do brilho lá pros 40, 50 anos.
-    Mesmo assim, eu o queria sempre em pé.
-    Ta maluco, rapaz? O que as pessoas vão pensar de você se virem ele sempre em pé?
-    Vão pensar “esse cara é sagaz!”, mas com ele caído eu sinto o pessoal até rindo de mim. Estou me sentindo impotente, cara! Poxa, justo eu, que trato dele com tanto carinho, não deixo ninguém tocar nele…
-    Você é um maluco, isso sim! Se dependesse de mim, quem quisesse colocar a mão eu deixaria na hora! Mas que seja, isso não me importa. Você tem passado alguma coisa nele?
-     Tenho passado um shampoo, mas o creme acabou.
-    Que creme?
-    Porra, cara, que creme! Creme pra cabelo! Creme de cabelo para o cabelo, ué! Preciso desse Black Power impecável, as mulheres adoram meus cachos.
-    Cabelo?
-    É! Por quê? Você estava pensando em quê?
-    Eu? Deixa pra lá.

NadaCrônicas, 38

Ou Ainda Um Dia (Quase) Ruim

Seu dia tinha tudo para ser uma completa porcaria, como de costume: acordou atrasado para o trabalho que odeia, e nem pôde se dar ao luxo de tomar um cafezinho. Maldita vida de homem moderno. Já atrasado, no caminho para o ponto de ônibus, sentiu que tinha esquecido o celular em casa. Isso sim é o fim! O que faria um homem moderno, numa cidade grande, sem celular (mesmo que ele fique sem tocar o dia todo)? Nada. Mais cinco minutos de atraso voltando em casa para pegar o celular, que acabou lhe custando a perda do ônibus. O próximo ônibus só viria em dez, quinze minutos, talvez. O engarrafamento está monstro nessa cidade-monstro. E dá-lhe espera, e quando o ônibus enfim chega, há um mar de gente para entrar nele. Já um tanto resignado, pensava na tragicomédia que era sua vida, pois sempre sonhou em andar numa Mercedes, e agora estava em uma, com motorista e tudo. Não, não estava num carro caríssimo da Mercedes-Benz, mas sim num ônibus da Mercedes-Benz. É quase tudo a mesma coisa, a diferença é que o carro carrega um rico, e o ônibus carrega uns 70 ou 80 pobres.
E sim, o trânsito realmente está péssimo. Será acidente? Um buraco? Alienígenas que resolveram dominar a Terra justamente numa segunda-feira de manhã? Não. É que todo mundo quer ter um carro e sair para o trabalho com ele, aí dá nisso. “Do jeito que as coisas andam, a indústria automobilística teria que fazer um carro que tivesse velocidade máxima de 20 ou 30 km/h, pois é nessa velocidade que os carros andam por aqui”, pensou ele, com um ar filosofal.
E o trabalho? Que maravilha! Chegar atrasado e receber uma bronca descomunal do patrão, que gostoso! Mais gostoso que isso é ficar umas oito horas, sentado na frente de um computador, para fazer um trabalho que uma criança pode fazer em duas horas. E mais gostoso que isso tudo, era parar para pensar que é fim de mês e o seu salário é equivalente a, sei lá, duas horas de trabalho por dia, dividido pela metade, pois até uma criança pode fazer um trabalho desses. Marx já falava da mais-valia, lá no século XIX. É, não mudou muita coisa. Podia apostar que seu patrão guarda numa gaveta do escritório um chicote. Vai que rasgam as leis trabalhistas um dia desses, sem mais nem menos, vai saber.
E em Brasília, são 17 horas. Hora de sair do castigo, digo, do trabalho. E todo aquele sacrifício que ele fez para ir ao trabalho, seria refeito, mas para voltar para casa. Pontos cheios, pessoas cansadas, engarrafamento monstro, o de sempre. E nem uma batidinha de carro para distrair a viagem! Que pena! Mas foi o que eu disse no início da história, seu dia tinha tudo para ser uma completa porcaria, como de costume. Tinha:
- Oi amor, tudo bem? Como foi o trabalho?
- Normal. O de sempre…
- Sei…
- Mmmmm…
- O que houve, homem?
Nada, é que eu te amo.
- Gracinha! Eu te amo também.
E isso era mais do que o suficiente para fazer os dias dele um eterno céu de brigadeiro. O amor, meus caros! Ai, o amor!

NadaCrônicas, 37

Aposto que esse não é o padrão altíssimo de mulher com beleza e classe que o Seu Pinto está acostumado…

Ou Ainda De Papo Com Seu Pinto

- E essa daí?
- Não.
- Por quê?
- Porra, tem bigode, cara, cruzes! Bigode!
O que tem um pouco de pêlo? É charmoso.
- Pêlo na cara de mulher? E não é um fio, é um bigode, cara! Bigode só é charmoso para um ator pornô mexicano dos anos 1980.
- Mas a bundinha…
- A bundinha até que não é de se jogar fora, mas o bigode acaba com tudo.
- Tá bom, tá bom, e essa agora?
- Bonita. Até que é um doce.
- E…
- E sem sal.
Sem sal? Você só pode tá brincando. Rapaz, coloca um chantilly, um chocolate que tá tudo certo.
- Cara, chantilly, chocolate, é tudo doce. Eu te disse que ela é um doce, mas é sem sal.
- Sal, chocolate, tudo isso aí é comestível, e se come do mesmo jeito, se é que você me entende. E essa que ta passando agora? Cabelos cacheados…
- … E cheio de creme. Não gosto de mulher que enche o cabelo de creme.
- Você é complicado, hein! E essa agora que ta vindo aí, tem cabelo lisinho, deve ter ascendência indígena, oriental, ou passou a prancha no cabelo, que seja. Mas o cabelo é liso!
- Quem te disse que gosto de cabelo liso?
- Ué, você não gosta de cabelo cacheado, então…
- Eu não disse que não gostava de cabelo cacheado. E cabelo liso escorrega demais, de repente você quer dar aquela puxadinha de cabelo e o cabelo foge da mão, saca? A parada é cabelo misto, seja lá o que isso significa.
- Vem cá, você é cabelereiro agora? Você ta meio estranho, isso sim. Se você continuar assim vou pensar que você é chegado num careca, e carecas não fazem meu tipo.
Não, cara, é preferência. Você não vai num cinema assistir qualquer filme, por exemplo. Vai assistir um que faz seu estilo. Mulher é a mesma coisa, com a diferença que ir ao cinema é muito mais barato.
- Sei. E aquela ruiva do lado da de vestido preto?
- É um escocês de kilt e um padre, cara.
- Ah. Desculpa, é que às vezes me confundo.

NadaCrônicas, 36

 

Ou Ainda O Telefone

De um lado, eu: 1,80 e alguma coisinha, 70 quilos, 20 e poucos anos de vitórias, derrotas e empates. Do outro lado, o telefone: entre 10 e 15 centímetros, não deve pesar nem cinqüenta gramas, tira fotos, grava, até serve para fazer e receber ligações. E eu o encaro. E ele me encara. E eu o encaro de novo. E ele me encara. O dia todo. Eu quero que ele toque. Ou não. Ele parece que não quer tocar. Ou não. São 14:39. O dia até aqui passou devagar, ainda mais porque eu confiro o horário de dois em dois minutos. No celular, claro. É que eu precisava de uma desculpa para ver se não tinha perdido nenhuma ligação.
Até que ele toca. Número não identificado.
- Alô.
Olá, boa tarde, eu represento o Banco Tal, senhor Flavio, queria saber se o senhor quer estar recebendo o nosso cartão de crédito.
- Não.
- Posso saber o motivo?
- É que eu devo tanto, mas tanto, que se eu chamar alguém de “meu bem”, o banco vem e toma.
- Mas o senhor vai ter um limite de r$ 800! É uma oportunidade e tanto!
- É sim, uma oportunidade e tanto pro seu chefe, o dono do Banco Tal, me arrancar até as cuecas velhas sem elástico. Tenha uma boa tarde.
É, não era quem eu esperava. Para dizer a verdade, nem sei quem eu espero que me ligue. Enquanto isso, eu encaro o telefone. Ele me encara. O tempo passa, e ele lá, imóvel, sem tocar uma musiquinha, sem dar uma tremidinha, nada. Esse celular tem sangue frio, ou bateria fria, sei lá. Ele no canto dele e eu imaginando se ele tem sangue. Claro que não tem. Eu acho.
Até que ele toca, de novo. Número desconhecido.
- Casa da Salada, qual o pepino?
- Oi?
- Quem é?
Oi, eu queria falar com a Judite, ela se encontra?
- A Judite? Peraí, eu vou chamar.
E deixo passar um minuto e volto ao telefone.
- Alô.
- Judite?
- Não, se bem que é um bom nome para mim quando eu mudar de sexo.
- O quê?
Nada. Ó, a Judite não está.
- Como não está?
- É que esse telefone não é o dela. É engano, minha tia. Tenha uma boa tarde.
Acho que nunca fui tão xingado na minha vida. E nem preciso dizer que não era quem eu esperava, até porque, não espero que ninguém me ligue. Enquanto isso, eu encaro o telefone. E ele me encara. E nada acontece. Aposto se eu desligá-lo, até o Obama me liga. Mas o deixo ligado mesmo assim. Vai que alguém com quem eu quero falar me liga. Vai saber!

NadaCrônicas, 35

Ou Ainda O Dia em que o Medo Venceu a Esperança

Ela é tida como a última a morrer. Ele, o primeiro a perecer. A Esperança tentou, por anos a fio, convencer o Medo de que não tinha que ter medo. “A vida é muito curta para ficarmos pensando nas coisas que podem acontecer, isso se elas acontecerem!”, dizia ela. Mas o Medo, que além de medroso, era teimoso, insistia na sua insegurança. Pensava não no passo seguinte, mas no segundo, no terceiro e até no quarto passo. Por isso era tão medroso. “Tenho medo disso”, “tenho medo daquilo”, era só isso que o Medo tinha a dizer. Dizia que a Esperança fantasiava demais, que ela tinha que encarar os fatos, a realidade do amor impossível. E a Esperança dizia que o Medo precisava de mais determinação para tentar algo além de congelar diante da possibilidade do possível fracasso, porque apesar de serem tão diferentes, se amavam muito. E o medo do futuro não podia ser “O” obstáculo para um amor que julgavam ser tão grande. Mas o medo do Medo foi maior, mesmo ele dizendo que o medo dele era, no fundo, a maior declaração de amor que ele podia dar a Esperança. A Esperança não entendeu bem assim. Não era amor, era covardia, dizia ela. A verdade é que o Medo desistiu de amar e de ser amado de verdade. A Esperança é a última que morre, é o que dizem por aí. Pode ser. Mas o Medo se faz triunfante antes de tudo quando não existe coragem para vencê-lo.

NadaCrônicas, 34

Ou Ainda Óculos

- Olha, pode parecer loucura, e acho que é, eu tava lá do outro lado te olhando e vi que você também me dava umas olhadas, e resolvi vir aqui falar com você. Acho que você é a mulher da minha vida. N-não, deixa eu falar, por favor, sou tímido e a pior coisa que se pode fazer a um tímido é interrompê-lo quando ele está falando, frustra legal. Olha, eu sei que você saiu pra se divertir e a última coisa que você quer é ser importunada por um sujeito chato como eu. Juro que eu vou até embora depois de falar com você, se você quiser que eu vá, claro. M-mas olha – ai, to até suando frio! – eu vi que você estava sozinha e tomei coragem de vir aqui falar contigo. Sabe, tem que ser muito corajoso pra tentar alguma coisa com uma mulher tão linda! Eu só posso estar maluco! Mas o-olha, eu só queria uma companhia legal essa noite, não precisa ter beijo na boca, de ir para os “finalmente”, podemos só conversar, sei lá, eu até tirei os óculos para parecer mais atraente, mas não preciso nem de óculos para reparar nesse seu lindo – peraí, deixa eu colocar os óculos de novo! – reparar no seu lindo… Bigode?
- É, rapaz, acho que você tava passando cantada na pessoa errada…
D-desculpa! É que eu to nervoso, tirei os óculos para …
- Eu sei, eu sei, é a morena aqui atrás, né?
- É que – caraca! – você tem cabelo grande também… Mas por que você não falou nada? Não vai me dizer que estava gostando?
- Até estava, mas eu gosto de mulher também.
- Desculpa! Deixe-me passar para falar com ela… Oi, tudo bem? Olha, pode parecer loucura…

NadaCrônicas, 33

Ou Ainda Da Vez Que Visitei o Céu

Sinceramente, nem sei o que me aconteceu naquele dia. Fui dormir como em qualquer outra noite, mas pareceu que eu saí do meu corpo. Vi-me deitado, babando no travesseiro – como sou feio dormindo! – e algo me puxava para cima. Procurei por cordas, asas, até por um elevador, mas eu estava flutuando. Flutuei, flutuei e flutuei até alcançar as nuvens. Verdade, eu tenho que parar de comer feito um condenado antes de dormir, a coisa já está ficando meio estranha.
Até que fiquei na frente de um portão dourado, e um senhor barbudo, simpático até, me olhando:
- Estávamos te esperando! Desculpe a viagem, é que mudamos o programa de satélite que faz essas coisas, tecnologia japonesa, sabe como que é, né…
- M-mas onde estou?
No Céu.
- Sério?
- Não, na Central do Brasil. Não ta vendo, meu filho? Nuvens, um portão dourado, um velhinho simpático te recebendo…
- São Pedro?
- Sou eu. Prazer.
- Desculpa, é que eu nunca morri antes, eu acho.
- Mas você não morreu.
- Não?
- Não.
- Então o que eu to fazendo aqui? Não sabia que existia Céu para ateus.
- Aí que está a graça. Vocês são os únicos que não se preocupam com recompensas ou castigos depois de morto. Todo mundo reza porque quer vir pro Céu. Fazem o Diabo, mas pensam que rezando está tudo bem. Agora, fazer o bem para os menos afortunados sem esperar recompensas eternas é um ato interessante que merece ser recompensado.
- Faz sentido. É confuso, mas faz sentido. Mas se não morri, o que estou fazendo aqui?
Sabe aquelas visitas que você faz antes de se mudar para algum lugar? Pois é. Segundo a ordem do Chefe, a gente passou a fazer a mesma coisa. Nós daqui e eles lá embaixo, se é que você me entende. Sabe como que é, mundo capitalista, concorrência, esse blábláblá todo que você está acostumado.
- Significa que vou fazer uma visita ao Céu e ao Inferno?
- Uhum. E quando você morrer de fato, já sabemos para onde você vai. Evita fila, burocracia, essas coisas terrenas.
- Legal…
- Então, que está achando do Céu?
- Sei lá…
Como assim, “sei lá”? Aqui é divino. De outro mundo!
- Desculpa a sinceridade, é que aqui parece a Quinta da Boa Vista.
- E não é bom? Um lugar bucólico para alguém…
- Bucólico.
- Isso!
- Não me leva a mal não, mas espero que tenha mais coisa para fazer por aqui.
- Ó a vista! Panorâmica! Sua nuvem própria! Delícia!
- É, legal.
- Você gosta de música, né?
- Claro!
Você pode aprender a tocar harpa.
- Aí enfraquece, Pedrão.
- Por quê?
- Passei metade da minha vida tentando aprender a tocar violão para fazer um barulhinho legal numa guitarra, e o senhor me vem com harpa?
- É tudo de corda, faz diferença?
- Faz.
- É que o barulho de guitarra é meio infernal. Aqui somos celestiais! Celestiais, Flavio!
- Entendi.
- Ó, o Diabo ta aí no portão te esperando.
- Mas quero ir pro Inferno não!
- Por quê? Só porque todas as pessoas de índole duvidosa estão por lá?
- Não.
- Só porque você não lida com a idéia de ameaça diária de violência?
- Não. Eu estou acostumado com pessoas de índole duvidosa e com ameaças diárias de violência. Sou do Rio de Janeiro.
- Então porquê você não quer nem conhecer o Inferno?
- Porque não agüento com lugar quente. E também tem outra justificativa.
- Qual?
Cansei de ser underground. Quando começo a tocar harpa?

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