Archive for the ‘Crônica’ Category

NadaCrônicas, 34

Ou Ainda Óculos

- Olha, pode parecer loucura, e acho que é, eu tava lá do outro lado te olhando e vi que você também me dava umas olhadas, e resolvi vir aqui falar com você. Acho que você é a mulher da minha vida. N-não, deixa eu falar, por favor, sou tímido e a pior coisa que se pode fazer a um tímido é interrompê-lo quando ele está falando, frustra legal. Olha, eu sei que você saiu pra se divertir e a última coisa que você quer é ser importunada por um sujeito chato como eu. Juro que eu vou até embora depois de falar com você, se você quiser que eu vá, claro. M-mas olha – ai, to até suando frio! – eu vi que você estava sozinha e tomei coragem de vir aqui falar contigo. Sabe, tem que ser muito corajoso pra tentar alguma coisa com uma mulher tão linda! Eu só posso estar maluco! Mas o-olha, eu só queria uma companhia legal essa noite, não precisa ter beijo na boca, de ir para os “finalmente”, podemos só conversar, sei lá, eu até tirei os óculos para parecer mais atraente, mas não preciso nem de óculos para reparar nesse seu lindo – peraí, deixa eu colocar os óculos de novo! – reparar no seu lindo… Bigode?
- É, rapaz, acho que você tava passando cantada na pessoa errada…
D-desculpa! É que eu to nervoso, tirei os óculos para …
- Eu sei, eu sei, é a morena aqui atrás, né?
- É que – caraca! – você tem cabelo grande também… Mas por que você não falou nada? Não vai me dizer que estava gostando?
- Até estava, mas eu gosto de mulher também.
- Desculpa! Deixe-me passar para falar com ela… Oi, tudo bem? Olha, pode parecer loucura…

NadaCrônicas, 33

Ou Ainda Da Vez Que Visitei o Céu

Sinceramente, nem sei o que me aconteceu naquele dia. Fui dormir como em qualquer outra noite, mas pareceu que eu saí do meu corpo. Vi-me deitado, babando no travesseiro – como sou feio dormindo! – e algo me puxava para cima. Procurei por cordas, asas, até por um elevador, mas eu estava flutuando. Flutuei, flutuei e flutuei até alcançar as nuvens. Verdade, eu tenho que parar de comer feito um condenado antes de dormir, a coisa já está ficando meio estranha.
Até que fiquei na frente de um portão dourado, e um senhor barbudo, simpático até, me olhando:
- Estávamos te esperando! Desculpe a viagem, é que mudamos o programa de satélite que faz essas coisas, tecnologia japonesa, sabe como que é, né…
- M-mas onde estou?
No Céu.
- Sério?
- Não, na Central do Brasil. Não ta vendo, meu filho? Nuvens, um portão dourado, um velhinho simpático te recebendo…
- São Pedro?
- Sou eu. Prazer.
- Desculpa, é que eu nunca morri antes, eu acho.
- Mas você não morreu.
- Não?
- Não.
- Então o que eu to fazendo aqui? Não sabia que existia Céu para ateus.
- Aí que está a graça. Vocês são os únicos que não se preocupam com recompensas ou castigos depois de morto. Todo mundo reza porque quer vir pro Céu. Fazem o Diabo, mas pensam que rezando está tudo bem. Agora, fazer o bem para os menos afortunados sem esperar recompensas eternas é um ato interessante que merece ser recompensado.
- Faz sentido. É confuso, mas faz sentido. Mas se não morri, o que estou fazendo aqui?
Sabe aquelas visitas que você faz antes de se mudar para algum lugar? Pois é. Segundo a ordem do Chefe, a gente passou a fazer a mesma coisa. Nós daqui e eles lá embaixo, se é que você me entende. Sabe como que é, mundo capitalista, concorrência, esse blábláblá todo que você está acostumado.
- Significa que vou fazer uma visita ao Céu e ao Inferno?
- Uhum. E quando você morrer de fato, já sabemos para onde você vai. Evita fila, burocracia, essas coisas terrenas.
- Legal…
- Então, que está achando do Céu?
- Sei lá…
Como assim, “sei lá”? Aqui é divino. De outro mundo!
- Desculpa a sinceridade, é que aqui parece a Quinta da Boa Vista.
- E não é bom? Um lugar bucólico para alguém…
- Bucólico.
- Isso!
- Não me leva a mal não, mas espero que tenha mais coisa para fazer por aqui.
- Ó a vista! Panorâmica! Sua nuvem própria! Delícia!
- É, legal.
- Você gosta de música, né?
- Claro!
Você pode aprender a tocar harpa.
- Aí enfraquece, Pedrão.
- Por quê?
- Passei metade da minha vida tentando aprender a tocar violão para fazer um barulhinho legal numa guitarra, e o senhor me vem com harpa?
- É tudo de corda, faz diferença?
- Faz.
- É que o barulho de guitarra é meio infernal. Aqui somos celestiais! Celestiais, Flavio!
- Entendi.
- Ó, o Diabo ta aí no portão te esperando.
- Mas quero ir pro Inferno não!
- Por quê? Só porque todas as pessoas de índole duvidosa estão por lá?
- Não.
- Só porque você não lida com a idéia de ameaça diária de violência?
- Não. Eu estou acostumado com pessoas de índole duvidosa e com ameaças diárias de violência. Sou do Rio de Janeiro.
- Então porquê você não quer nem conhecer o Inferno?
- Porque não agüento com lugar quente. E também tem outra justificativa.
- Qual?
Cansei de ser underground. Quando começo a tocar harpa?

Cenas (In)Comuns, 2

Para aí, cidadão.
- Quem, eu?
- É.
- O que houve, seu guarda?
- Deixa eu ver a documentação do carro.
- Ih, seu guarda, dá não.
- Por quê?
Esse carro não é meu, é emprestado, e nem tenho carteira ainda.
- Que bonito, hein! Sai do carro! E essa lata de cerveja vazia dentro do seu carro?
- É, seu guarda, eu admito, eu tava bebendo enquanto bebia.
- E pelo menos a uns 30 km/h acima do permitido. Você gosta de confusão, hein garoto!
- Mas seu guarda, a gente pode resolver isso.
- Como assim, rapaz?
Aceita um dinheiro para a cervejinha?
- Você está querendo me subornar, rapaz?
- Sabe, “subornar” é uma palavra muito forte. Diria que é uma “ajuda de custo” pelo seu trabalho bem feito.
- Você pensa que todos policiais são corruptos?
Não é questão de corrupção, seu guarda, é fazer uma vista grossa. Me libera que prometo pro senhor que nunca mais sou pego numa blitz, não atropelo velhinha, nem xingo no trânsito.
- Rapaz, você ta fazendo um juízo errado dos policiais…
- Que absurdo, seu guarda! Você não vai aceitar suborno? Acho que isso vai custar seu emprego! No Brasil é quase como violar a Constituição! Chama seu superior que eu tenho uma queixa para levar a ele! Absurdo, não aceitar suborno, ainda mais no Brasil…

NadaCrônicas, 32

Ou Ainda Eu e Emanuelle

Quando a conheci, eu nem tinha maldade o suficiente para imaginar posições sexuais. Escutava os meninos mais velhos, de 15, 16 anos, falando de posição X ou Y e eu fazia força para tentar imaginar como que era. E, na maioria das vezes, achava aquilo tudo impossível, a menos que se estivesse transando com uma ginasta romena. Mas isso foi até eu conhece-la. Até pouco tempo achava que ela era muda. Pior. Muda e bem mais velha. Não sei se minha mãe aceitaria que seu então filho inocente se relacionasse com uma mulher mais velha.
Não sei onde Emanuelle se metia durante a semana toda (ou se era metida a semana toda, vai saber), mas a madrugada de sábado era nossa. Ela chegava lá em casa por volta das duas e pouca e ficava até… Não sei até que horas ela ficava. Só sei que eu ficava exausto um pouco antes das três e ia dormir sem me despedir, e ela nem ligava. Entrava muda e saía calada lá de casa, porque o barulho podia acordar as outras pessoas da casa. Pois é, sexo perigoso e divertido.
E ela me mostrou até alguns lugares do mundo, mas ela me mostrou também seu belo par de peitos. Isso para um garoto de 14 anos é bem mais interessante que viajar para ver touradas, ir a África ou ao Oriente. Pensando bem, dependendo do par de peitos e do conjunto da obra, é bem mais interessante até hoje. Que seja. Lembro que tinha vezes que ela parecia outra pessoa. Tinha dias que ela tinha um jeitão tão anos 1980, em outros era um mulherão ao estilo anos 1990, mas sinceramente, pouco me importava. Só sei que tinha dias que as luzes ficavam meio baixas, o quarto parecia rodar… Tiveram algumas vezes que ela até me pediu para colocar um óculos 3D, para apimentar um pouco mais a noite, mas nunca consegui usar o tal óculos, por dois motivos: o primeiro era que eu achava – e ainda acho – ridículo usar óculos em lugares escuros, até porque já se enxerga pouco. O outro motivo era que eu não tinha o maldito dos óculos. Mas era bom, mesmo que com ela eu sempre tive a impressão de estar sozinho. Mas dane-se. Ela era minha.
Mas não era só minha. Meus amigos também conheciam Emanuelle. Como? Não sei. E faziam todas aquelas coisas que eu fazia com ela. Estranho. Não me lembro de ter participado de nenhum gang-bang, ainda mais com conhecidos, alguns que até hoje são bem mais feios que eu. Não faziam o tipo de Emanuelle, tenho certeza. Só podia ser mentira, blefe de moleque invejoso. Calúnia! Mas desde sempre sabia que não podia confiar em Emanuelle, que parecia separada de mim por um vidro, uma tela. Fiquei transtornado, inconsolável, pelo menos até o primeiro par de peitos que de fato toquei. Mas isso é outra história.

NadaCrônicas, 31

Ou ainda A Despedida

- Tenho que ir.
- O quê? Já?
- Uhum.
- Mas ainda está cedo!
Desculpa, mas não posso ficar mais.
- Mas é só isso?
- Como assim?
- Espero você durante o mês todo, você chega e já vai embora? Não tem nem dois dias que você chegou.
- Desculpa.
- Desculpa? É só isso que você me fala?
Uhum. Sempre te disse que eu não era essas coisas todas. Não tenho culpa se você é tão teimoso.
- Eu sou teimoso porque você sabe que não posso viver sem você! Por mais que eu queira não depender de você, você sabe que é importante para mim. E sempre é assim: você vem, fica um, dois dias, no máximo, e vai embora mais rápido do que pobre atrasado para o trabalho atrás do ônibus.
- Flavio…
- Hum.
- Você É um pobre que corre atrás de ônibus.
- Eu sei, estou te falando por experiência própria.
- Sei… Desculpa, está na minha hora. Acho que fiquei até tempo demais esse mês.
- Então é assim…
- Sim, é assim. Infelizmente.
Você volta?
- Você sabe que volto no início do mês que vem. Tchau.
- Tchau, Salário.

(mini) NadaCrônicas, 30

Ou Ainda Enquanto Isso, Numa Repartição Pública Qualquer…

Os papéis vão se multiplicando a medida que eu trabalho, ou não. Se eu trabalho muito, eles continuam aparecendo. Se eu paro de trabalhar, eles aparecem em maior número. São pilhas e pilhas de papel que estou tentando separar os papéis macho dos papéis fêmeas, para evitar a reprodução, mas não sei distinguir umas das outras. Nem o Google me ajudou nessa. É tanto papel que penso que sou um dos maiores responsáveis pelo desmatamento da Amazônia. Sorte minha que no Brasil temos por hábito não prender os verdadeiros culpados de crimes. Sorte a minha.

NadaCrônicas, 29

Ou Ainda A Conquista

Parecia que eram só os dois. As pessoas que estavam no ônibus, as alegrias e tristezas alheias não existiam. O mundo era só deles dois naquele momento. Ele falou algo para ela, ela o olhou e riu. Provavelmente foi uma piada sem graça que ele contou, mas que era tão sem graça que ela abriu um sorriso. Esse é dos meus, deve ter aprendido a arte da conquista na Escola dos Românticos Politicamente Incorretos. Ele não era bonito, e ela também não era essas coisas todas, mas parecia que isso realmente não importava para nenhum dos dois. Ele falou algo no ouvido dela, e com aquela cara de quem não está jogando para perder. Ela olha nos olhos dele com uma cara de eterna indecisão. E de repente o beijo. Garoto bom, esse. Ajudou ela a dar adeus a indecisão, ou piorou a cabeça da coitada de vez. É um beijo longo. Contei exatos 1 minuto e 32 segundos. Ele só tem que tomar cuidado com essa mão direita, doidinha para apalpar o peito da sua conquista, mas nem o tapinha que ela deu na mão dele de leve interrompeu o beijo. Interrompeu só a apalpada. Deu vontade de falar para ele que, se ele continuasse beijando ela assim, em menos de 48 horas ele podia apalpar os peitos e outras coisas mais legais. E com tapinhas incluídos, mas só se ela pedisse.

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