Ou Ainda Um Dia (Quase) Ruim
Seu dia tinha tudo para ser uma completa porcaria, como de costume: acordou atrasado para o trabalho que odeia, e nem pôde se dar ao luxo de tomar um cafezinho. Maldita vida de homem moderno. Já atrasado, no caminho para o ponto de ônibus, sentiu que tinha esquecido o celular em casa. Isso sim é o fim! O que faria um homem moderno, numa cidade grande, sem celular (mesmo que ele fique sem tocar o dia todo)? Nada. Mais cinco minutos de atraso voltando em casa para pegar o celular, que acabou lhe custando a perda do ônibus. O próximo ônibus só viria em dez, quinze minutos, talvez. O engarrafamento está monstro nessa cidade-monstro. E dá-lhe espera, e quando o ônibus enfim chega, há um mar de gente para entrar nele. Já um tanto resignado, pensava na tragicomédia que era sua vida, pois sempre sonhou em andar numa Mercedes, e agora estava em uma, com motorista e tudo. Não, não estava num carro caríssimo da Mercedes-Benz, mas sim num ônibus da Mercedes-Benz. É quase tudo a mesma coisa, a diferença é que o carro carrega um rico, e o ônibus carrega uns 70 ou 80 pobres.
E sim, o trânsito realmente está péssimo. Será acidente? Um buraco? Alienígenas que resolveram dominar a Terra justamente numa segunda-feira de manhã? Não. É que todo mundo quer ter um carro e sair para o trabalho com ele, aí dá nisso. “Do jeito que as coisas andam, a indústria automobilística teria que fazer um carro que tivesse velocidade máxima de 20 ou 30 km/h, pois é nessa velocidade que os carros andam por aqui”, pensou ele, com um ar filosofal.
E o trabalho? Que maravilha! Chegar atrasado e receber uma bronca descomunal do patrão, que gostoso! Mais gostoso que isso é ficar umas oito horas, sentado na frente de um computador, para fazer um trabalho que uma criança pode fazer em duas horas. E mais gostoso que isso tudo, era parar para pensar que é fim de mês e o seu salário é equivalente a, sei lá, duas horas de trabalho por dia, dividido pela metade, pois até uma criança pode fazer um trabalho desses. Marx já falava da mais-valia, lá no século XIX. É, não mudou muita coisa. Podia apostar que seu patrão guarda numa gaveta do escritório um chicote. Vai que rasgam as leis trabalhistas um dia desses, sem mais nem menos, vai saber.
E em Brasília, são 17 horas. Hora de sair do castigo, digo, do trabalho. E todo aquele sacrifício que ele fez para ir ao trabalho, seria refeito, mas para voltar para casa. Pontos cheios, pessoas cansadas, engarrafamento monstro, o de sempre. E nem uma batidinha de carro para distrair a viagem! Que pena! Mas foi o que eu disse no início da história, seu dia tinha tudo para ser uma completa porcaria, como de costume. Tinha:
- Oi amor, tudo bem? Como foi o trabalho?
- Normal. O de sempre…
- Sei…
- Mmmmm…
- O que houve, homem?
- Nada, é que eu te amo.
- Gracinha! Eu te amo também.
E isso era mais do que o suficiente para fazer os dias dele um eterno céu de brigadeiro. O amor, meus caros! Ai, o amor!