Archive for the ‘Crônica’ Category

Cenas (In)Comuns, 2

- Para aí, cidadão.
- Quem, eu?
- É.
- O que houve, seu guarda?
- Deixa eu ver a documentação do carro.
- Ih, seu guarda, dá não.
- Por quê?
- Esse carro não é meu, é emprestado, e nem tenho carteira ainda.
- Que bonito, hein! Sai do carro! E essa lata de cerveja vazia dentro do seu carro?
- É, seu guarda, eu admito, eu tava bebendo enquanto bebia.
- E pelo menos a uns 30 km/h acima do permitido. Você gosta de confusão, hein garoto!
- Mas seu guarda, a gente pode resolver isso.
- Como assim, rapaz?
- Aceita um dinheiro para a cervejinha?
- Você está querendo me subornar, rapaz?
- Sabe, “subornar†é uma palavra muito forte. Diria que é uma “ajuda de custo†pelo seu trabalho bem feito.
- Você pensa que todos policiais são corruptos?
- Não é questão de corrupção, seu guarda, é fazer uma vista grossa. Me libera que prometo pro senhor que nunca mais sou pego numa blitz, não atropelo velhinha, nem xingo no trânsito.
- Rapaz, você ta fazendo um juízo errado dos policiais…
- Que absurdo, seu guarda! Você não vai aceitar suborno? Acho que isso vai custar seu emprego! No Brasil é quase como violar a Constituição! Chama seu superior que eu tenho uma queixa para levar a ele! Absurdo, não aceitar suborno, ainda mais no Brasil…

NadaCrônicas, 32

Ou Ainda Eu e Emanuelle

Quando a conheci, eu nem tinha maldade o suficiente para imaginar posições sexuais. Escutava os meninos mais velhos, de 15, 16 anos, falando de posição X ou Y e eu fazia força para tentar imaginar como que era. E, na maioria das vezes, achava aquilo tudo impossível, a menos que se estivesse transando com uma ginasta romena. Mas isso foi até eu conhece-la. Até pouco tempo achava que ela era muda. Pior. Muda e bem mais velha. Não sei se minha mãe aceitaria que seu então filho inocente se relacionasse com uma mulher mais velha.
Não sei onde Emanuelle se metia durante a semana toda (ou se era metida a semana toda, vai saber), mas a madrugada de sábado era nossa. Ela chegava lá em casa por volta das duas e pouca e ficava até… Não sei até que horas ela ficava. Só sei que eu ficava exausto um pouco antes das três e ia dormir sem me despedir, e ela nem ligava. Entrava muda e saía calada lá de casa, porque o barulho podia acordar as outras pessoas da casa. Pois é, sexo perigoso e divertido.
E ela me mostrou até alguns lugares do mundo, mas ela me mostrou também seu belo par de peitos. Isso para um garoto de 14 anos é bem mais interessante que viajar para ver touradas, ir a Ãfrica ou ao Oriente. Pensando bem, dependendo do par de peitos e do conjunto da obra, é bem mais interessante até hoje. Que seja. Lembro que tinha vezes que ela parecia outra pessoa. Tinha dias que ela tinha um jeitão tão anos 1980, em outros era um mulherão ao estilo anos 1990, mas sinceramente, pouco me importava. Só sei que tinha dias que as luzes ficavam meio baixas, o quarto parecia rodar… Tiveram algumas vezes que ela até me pediu para colocar um óculos 3D, para apimentar um pouco mais a noite, mas nunca consegui usar o tal óculos, por dois motivos: o primeiro era que eu achava – e ainda acho – ridículo usar óculos em lugares escuros, até porque já se enxerga pouco. O outro motivo era que eu não tinha o maldito dos óculos. Mas era bom, mesmo que com ela eu sempre tive a impressão de estar sozinho. Mas dane-se. Ela era minha.
Mas não era só minha. Meus amigos também conheciam Emanuelle. Como? Não sei. E faziam todas aquelas coisas que eu fazia com ela. Estranho. Não me lembro de ter participado de nenhum gang-bang, ainda mais com conhecidos, alguns que até hoje são bem mais feios que eu. Não faziam o tipo de Emanuelle, tenho certeza. Só podia ser mentira, blefe de moleque invejoso. Calúnia! Mas desde sempre sabia que não podia confiar em Emanuelle, que parecia separada de mim por um vidro, uma tela. Fiquei transtornado, inconsolável, pelo menos até o primeiro par de peitos que de fato toquei. Mas isso é outra história.

NadaCrônicas, 31

Ou ainda A Despedida

- Tenho que ir.
- O quê? Já?
- Uhum.
- Mas ainda está cedo!
- Desculpa, mas não posso ficar mais.
- Mas é só isso?
- Como assim?
- Espero você durante o mês todo, você chega e já vai embora? Não tem nem dois dias que você chegou.
- Desculpa.
- Desculpa? É só isso que você me fala?
- Uhum. Sempre te disse que eu não era essas coisas todas. Não tenho culpa se você é tão teimoso.
- Eu sou teimoso porque você sabe que não posso viver sem você! Por mais que eu queira não depender de você, você sabe que é importante para mim. E sempre é assim: você vem, fica um, dois dias, no máximo, e vai embora mais rápido do que pobre atrasado para o trabalho atrás do ônibus.
- Flavio…
- Hum.
- Você É um pobre que corre atrás de ônibus.
- Eu sei, estou te falando por experiência própria.
- Sei… Desculpa, está na minha hora. Acho que fiquei até tempo demais esse mês.
- Então é assim…
- Sim, é assim. Infelizmente.
- Você volta?
- Você sabe que volto no início do mês que vem. Tchau.
- Tchau, Salário.

(mini) NadaCrônicas, 30

Ou Ainda Enquanto Isso, Numa Repartição Pública Qualquer…

Os papéis vão se multiplicando a medida que eu trabalho, ou não. Se eu trabalho muito, eles continuam aparecendo. Se eu paro de trabalhar, eles aparecem em maior número. São pilhas e pilhas de papel que estou tentando separar os papéis macho dos papéis fêmeas, para evitar a reprodução, mas não sei distinguir umas das outras. Nem o Google me ajudou nessa. É tanto papel que penso que sou um dos maiores responsáveis pelo desmatamento da Amazônia. Sorte minha que no Brasil temos por hábito não prender os verdadeiros culpados de crimes. Sorte a minha.

NadaCrônicas, 29

Ou Ainda A Conquista

Parecia que eram só os dois. As pessoas que estavam no ônibus, as alegrias e tristezas alheias não existiam. O mundo era só deles dois naquele momento. Ele falou algo para ela, ela o olhou e riu. Provavelmente foi uma piada sem graça que ele contou, mas que era tão sem graça que ela abriu um sorriso. Esse é dos meus, deve ter aprendido a arte da conquista na Escola dos Românticos Politicamente Incorretos. Ele não era bonito, e ela também não era essas coisas todas, mas parecia que isso realmente não importava para nenhum dos dois. Ele falou algo no ouvido dela, e com aquela cara de quem não está jogando para perder. Ela olha nos olhos dele com uma cara de eterna indecisão. E de repente o beijo. Garoto bom, esse. Ajudou ela a dar adeus a indecisão, ou piorou a cabeça da coitada de vez. É um beijo longo. Contei exatos 1 minuto e 32 segundos. Ele só tem que tomar cuidado com essa mão direita, doidinha para apalpar o peito da sua conquista, mas nem o tapinha que ela deu na mão dele de leve interrompeu o beijo. Interrompeu só a apalpada. Deu vontade de falar para ele que, se ele continuasse beijando ela assim, em menos de 48 horas ele podia apalpar os peitos e outras coisas mais legais. E com tapinhas incluídos, mas só se ela pedisse.

NadaCrônicas, 27

Ou Ainda A Verdade Dói

A verdade, meus caros amigos, a verdade. Sinto lhes informar, mas a verdade, na verdade, não existe. É sério. Se ela existisse, ninguém a suportaria. Para isso existe a mentira. Ou você imagina um diálogo como este?

- Amor?
- Hum.
- Você me ama?
- Por quê?
- Ai, sei lá, você me ama?
- Depende.
- Como assim?
- Olha, tem horas que te amo na cozinha, tem horas que te amo calada, tem horas que te amo na cama, fazendo sexo, apesar da minha ejaculação precoce, ou dormindo, mesmo… E claro, tem horas que eu me pergunto porque que eu te conheci. Preciso parar de beber. Merda. Mas não se preocupe, só me arrependo algumas vezes, quando você insiste para a gente tentar terapia de casal, que, na minha humilde opinião, acho coisa de viado, ou fica me dando indireta para arrumar um emprego praquele seu sobrinho que não quer nada da vida, ou ainda aquela maldita ideia de passar o Ano Novo com a jararaca da sua mãe e a cobrinha que é a sua irmã, velha encalhada, ou quando me faz perguntas idiotas, como “amor, estou gorda?†ou “amor, você me ama?â€, só nessas vezes que me dá vontade de mandar para um lugar aonde não bata Sol, como o Pólo Norte no inverno. Fora isso, eu te amo.
- Cruzes!
- Sério.
- Precisa ser tão grosso?
- Depende.
- Como assim?
- Você mesma me disse que eu preciso sempre te falar a verdade.
- Você já escutou falar de “mentirinhas sociais�
- Sim.
- Então por quê não as usa de vez em quando, seu grosso?
- É porque…sabe como é, você me conhece, eu não sei mentir direito. Baleia.
- Careca.
- Te amo.

Claro, um diálogo como esse terminaria com alguns palavrões, uma facada, e uma bela manchete de jornal naqueles jornais de gosto duvidoso (jornalistas, piores que advogados…) como “Baleia não aguenta a verdade e mata marido carecaâ€, mas eu resolvi dar um desfecho mais, er, humano. Então meu caro, antes de falar da verdade, aprenda a mentir um pouco. Tem gente que mente e ganha milhões, e a gente nessa de falar a verdade, somente a verdade, vai vivendo. Minto. Sobrevivendo.

NadaCrônicas, 26

Ou Ainda Doente…

(Já postei esse texto no meu antigo blog, mas vale a pena ver de novo…Eu acho)

- Senhor Flavio, tenho boas notícias.
- O que houve, doutor, vocês mudaram meu sexo?
- Quê?
- Desculpa, doutor, estou brincando. Acho que esses remédios estão me deixando meio chapado. A propósito, meu amigo Ringo te mandou um alô.
- Quem é Ringo?
- Você não conhece, é meu amigo invisível. Ele é um elefante rosa botafoguense que se comunica comigo falando javanês.
- Estou espantando.
- Com o quê, doutor? Com minha fluência em javanês ou por eu ser amigo de um elefante rosa?
- Não, por ele ser botafoguense.
- E anarquista! Elefante rosa botafoguense E anarquista! Acredita? Esse Ringo é mesmo uma figura!
- Sei… Bem, como ia dizendo, tenho boas notícias para o senhor. Como a operação é de rotina e o tempo de recuperação é curto, amanhã você pode voltar para casa e dentro de dois dias você pode voltar ao trabalho.
- Estou decepcionado…
- Por quê?
- Eu pensei que vocês iam me dar um pouco mais de tempo para me recuperar, coisa pouca, tipo uns seis meses.
- Hum… Entendo.
- Sabe como é, preciso de umas férias. Doutor, posso te perguntar uma coisa?
- Claro.
- É uma coisa que vou perguntar e preciso ser forte o suficiente para poder escutar a resposta, que pode acabar com todo o sentido da minha vida. Deixa eu respirar. Preciso ser forte para agüentar a resposta, talvez eu nunca suportei escutar de alguém algo tão sincero, mas preciso que o senhor não minta para mim.
- Tudo bem, diga.
- Doutor, antes de ser mandado para casa, uma enfermeira morena, com quadris fartos e sedenta por sexo selvagem com o primeiro paciente que apareça na sua frente, que por coincidência, sou eu, vai me dar banho?
- Hum… Talvez.
- Legal! Espero não ter exigido muito.
- Não, que isso! Boa noite, Flavio, volto aqui amanhã de manhã.
- Tudo bem, doutor. Doutor?
- Sim?
- Liga não, é tudo brincadeira. Serve uma enfermeira loira.

 

Easy AdSense by Unreal
Theme Tweaker by Unreal