Archive for the ‘Mulheres Que Nos Inspiram’ Category

NadaCrônicas, 2

A Primeira…

Antes dela eu nem sabia escrever direito. A minha letra continua ilegível, mas um sentimento nunca tinha sido tão claro para mim. Tão claro para mim, mas tão secreto para o mundo. Minha primeira paixão platônica, eu me lembro muito bem. Todos os dias eram de um céu azul com um sol a aquecer meu coração, igual aqueles desenhos que eu fazia no jardim de infância. Bons tempos. Seria melhor se ela soubesse que eu gostava tanto dela.

…E a Última Paixão Platônica…

Tudo que eu queria agora era não saber escrever e ter coragem para cortar meus pulsos. Covarde. Minha última paixão platônica, eu me lembro muito bem, mas tudo que quero é esquece-la. As noites são intermináveis, a comida não tem o mesmo sabor e a rejeição dói como operação de Ponte de Safena sem anestesia. Todos os dias são de um céu plúmbeo que insiste em chover apenas em mim, igual às músicas depressivas da nossa crise da adolescência. O tempo é o melhor remédio, tomado sem prescrição médica, em doses cavalares e com tarja preta. Seria melhor se eu fosse um cafajeste. O amor, crianças, é amargo! Amargo!

Poesia Numa Hora Dessas ? (7)

Ao Telefone com Natasha, ou ainda Desliga você, não, desliga você

O feijão queimou
Minha música tocou
A novela acabou
E eu ainda no telefone.

O sono já foi para a cama,
cansado de me esperar.
Maldito.
Fará falta amanhã, mas só amanhã.
- Não, mãe, não é um monólogo por celular, é Natasha.

E Natasha fala, e eu escuto.
E Natasha fala mais, e eu escuto mais.
E Natasha fala, e eu tento falar.
Não consigo.

E eu falo, e Natasha ri.
E eu falo mais, e Natasha ri mais.
Também estou rindo, mas tento parar.
Tímido e contido.
Não consigo.

Nunca um feijão queimado,
Uma música perdida
Ou o fim da novela
Valeram tanto a pena.

- Não, mãe, não é um monólogo por celular, é Natasha.

E eu ainda no telefone

Desliga você, não, desliga você.

Rio, 18 de junho de 2008.

Sérias Séries: NadaCrônicas

Esperando Mariane

Esperar é a coisa mais ingrata do mundo, mas sempre tem alguém esperando por alguém ou por alguma coisa por aí, não importa o quanto demore ou o risco de ficar esperando algo que nunca vai chegar – mas mesmo assim a fé na espera continua inabalável. Minha espera é menos dramática, mas qualquer coisa na minha vida tem que ter um contorno dramático, pior que novela mexicana. E assim espero Mariane. Ela falou que chegaria antes das 20 horas, mas a espero desde das 18 e muitas, quase 19 horas de uma noite de terça-feira, num Rio de Janeiro engarrafado por conta de um jogo do Fluminense, no Maracanã (para quê tanta bagunça? O Fluminense vai perder mesmo…).
O tempo é cruel, muito cruel. Não passa quando tem que passar rápido, mas passa voando quando poderia demorar uma eternidade. Eu olho o relógio e a hora parece voltar. Eu olho em volta e não vejo rostos conhecidos. A conclusão em que chego nessas horas é que é prejudicial à saúde chegar cedo demais aos lugares. Faz mal mesmo. Dou outra olhada no relógio, que marca a mesma hora da última vez que eu o olhei. Sinto-me num universo paralelo, fora da realidade, onde a única realidade é esta: esperar por Mariane. Avisto uma pessoa chegando, mas não é ela. Muito gorda. Avisto outra, agora muito magra. Avisto mais uma, mas é um cara de cabelo comprido. Preciso comprar óculos. Mariane é muito melhor que um metaleiro. No mínimo ela é mais cheirosa. Chega um ônibus, não desce ninguém. Chega outro, desce um mundo de gente que nunca vi na vida e nunca vou ver de novo. Para dizer a verdade, nem sei em que ônibus ela vem. Para dizer a verdade, nem sei se ela vem de ônibus. Para dizer a verdade, mesmo, nem sei se ela vem. Deve vir. Ela me falou de tarde. Tudo bem. Ela vem. Os casais de namorados me olham desconfiados, pensando que sou um voyeur. Não sou. Sou vascaíno. Vascaíno e portelense (era para eu ser acostumado a esperar). Nem tudo é perfeito. Nem Mariane. Mas ela é minha amiga, então não vou dizer isso a ela. Não ainda. Outras pessoas por ali fumam um cigarro, que não sei do que é, e quase peço um trago. Quase. Por pouco. Esperar me deixa nervoso. Esperar me faz suar. Justamente quando estou relativamente bem arrumado. Droga. Outras pessoas chegam, outras pessoas vão embora, e outras nem vieram, e eu esperando Mariane. Nunca mais a espero, vou falar isso com ela. Nem vou te ligar mais, Mariane, e esquece o número do meu celular! Isso mesmo, eu tenho que mostrar que sou homem, e dos mais rudes, porque elas adoram um homem rude!
- O que houve Flavio, ta falando sozinho?
- Oi, Mariane, nem te vi chegar… Er…Tudo bem?
- Tudo… Ta me esperando há muito tempo?
- Nada… Cheguei agora mesmo! Vamos comer?

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