Pequenos Adultos

Eu tenho a ligeira impressão que estou atravessando aqueles momentos de nostalgia, de achar que as coisas do meu tempo eram bem melhores do que as de hoje. Juro para vocês, não é implicância minha, as coisas realmente estão muito estranhas, isso para não dizer que estão piores. Eu não vou cometer a audácia de dizer que o mundo de hoje é uma porcaria. Sim, é uma porcaria mesmo, mas eu não vou ficar espalhando aos quatro ventos que nada presta, longe de mim! Mas que hoje esse mundo está estranho, ele está.
E uma das coisas que eu acho graça hoje em dia (isso para não chorar de raiva) é essa “inversão etária”, essa coisa de os mais velhos procurarem a eterna fonte da juventude e os mais novos desejarem queimar etapas e serem pequenos adultos. Eu nem vou falar muito dos vovôs que tinham tudo para aparecer lépidos e fagueiros num comercial do Viagra, com suas bengalas apontando para cima, invés de concordarem com a Lei da Gravidade. Fazer o quê, é o avanço da ciência deixando a velha guarda contente e com a disposição de um garoto. Deixa o pessoal aproveitar o segundo tempo da vida, eu não tenho nada a ver com isso. Eu fico espantado é com o fenômeno inverso, dos mais jovens - crianças inclusive! – apressarem as coisas e parecerem mais velhos. As crianças de hoje não tem a mesma inocência do meu tempo de criança, e isso tudo num intervalo de uma geração. Lembro como se fosse hoje, minha irmã com uns quatro ou cinco anos, com aqueles vestidos que a faziam parecer uma boneca, cheia de laços no cabelo, linda. E era comum ver isso. E eu não estou falando de quarenta anos atrás, estou falando dos distantes anos 1990! Muito tempo, coisa de século passado.
Hoje em dia, é normal vermos as crianças vestidas como miniaturas de adultos. Lembro que há um tempo atrás eu vi uma foto da filha do Tom Cruise (essa foto aí de cima!), de cinco ou seis anos, com salto alto. Não vou dizer que é culpa das crianças, coitadas. Os pais é que parecem que estão ficando sem juízo mesmo. Esses mesmos pais incentivam a criança a ter um comportamento inadequado para a idade delas (ensinam palavrões, danças erotizadas, entre outras coisas), e quando mais tarde a situação fica fora de controle, vão culpar qualquer coisa (a televisão, os amigos, blablabla), menos assumir a culpa pela criação dos próprios filhos. E, passada a infância, chegando na fase da adolescência, mais dificuldades, já que a situação há muito estará fora de controle. E dá-lhe gravidez precoce, abandono da escola (para quê que ela serve mesmo?), casamento precoce… Claro, não estou dizendo que uma criança que é criada nessas condições não será uma boa pessoa, que é certo que terá uma infinidade de traumas, mas há de se reconhecer que essa queima de etapas é um risco no desenvolvimento dessas crianças.
O que me deixa triste é que boa parte da minha geração que são os pais e mães dessa criançada de hoje. Fizeram alguma coisa com a gente nos anos 1990 para nos traumatizar para o resto da vida. Talvez tenham sido as roupas de criança que usávamos, sei lá. Traumático.

Flavio Responde, 2

O espaço “Flavio Responde” foi um sucesso na última semana. Recebi, aproximadamente, uma pergunta depois da estréia do espaço aqui do blog em que me disponho a aconselhar todos vocês 14 que me lêem. Obrigado!
E vamos a dúvida dessa semana:

“Olá Flavio, gostei da ajuda que você fez ao meu primo, e alem de filme, jantar e hotel, ele deve viajar para os estrangeiro, acho que assim ele vai aproveitar bem, e certamente ela não vai esquecer dele
Agora preciso de uma ajuda sua meu amigo, tendo em vista a sabado de dia dos namorados, queria sua ajuda ou pelo menos algumas dicas para arrumar uma namorada, na ultima vez que tentei foi um total desastre, fui brincar na salada acabei achando linguiça
Obrigado desde já.”

Joãozinho do Nabo, Nossa Senhora do Mato Adentro (eu acho), RO

Do Nabo, meu amigo. Não sei como vocês fazem aí em Mato Adentro, mas lá no Encantado seguimos alguns passos:

1. Seja objetivo: não perca seu tempo com poesias, bombons, flores. O melhor conquistador é aquele que não tem rodeios. Esqueça frases de efeito, e adote frases objetivas na arte da paquera como “Já é ou já era, colega?”, “Já é ou já era, e por quê não?” (uma variação da primeira frase), “Colega, faça sexo com segurança. Prazer, meu nome é segurança” ou a mais rebuscada e inspiradora “(lambida nos beiços, depois faça aquele barulhinho de quando comemos sopa) Te quero!”. Mulheres adoram a objetividade masculina, acredite.
2. Não escolha muito: pegue qualquer coisa, até porque, suponho que você não seja essas coisas mesmo. Desde banguelas, as que tem bigode e as que tem dente de ouro. Só dispense as que tem pênis, pegue-as só se você gostar que elas venham com algo a mais, se é que você me entende.
3. Freqüente os lugares certos para encontrar as mulheres certas:
percebi que você tem uma escrita para lá de objetiva – ou semi-analfabeta, tanto faz -, então desista de procurar em lugares em que você vai encontrar mulheres mais inteligentes do que você. Se as que são burrinhas já te desprezam, o que dirá as mais inteligentes! Desista de livrarias, grupos de poesia, essas coisas que eu tenho certeza que você nem sabe o que é. Procure as que começam todas as frases faladas com “Nem”. Essas sim servem para você.
4. Tenha uma foto sexy no Orkut: isso, meu caro, é fácil. Vá para a laje de seu puxadinho, tire uma foto de nu artístico com aquela merreca que você chama de salário, aquele celular que você conseguiu com seu primo trombadinha, e aqueles cordões que (segundo você diz) são de ouro. Ostente da sua situação econômica privilegiada e de toda sua sensualidade. Mulher adora isso, homem que tenha segurança na personalidade e no bolso, não necessariamente nessa ordem.

Para terminar, meu caro Do Nabo, não existe Dia dos Namorados. Isso é invenção do governo norte-americano para você gastar mais dinheiro. Então, quando estiver namorando, no dia 11 de junho, termine o namoro, sem mais nem menos. Deixe passar o dia 12, para que você não desperdice seu dinheiro suado numa besteira dessas. Aproveite o dia de solteiro e caia na orgia! Mas no dia 13, volte arrependido para sua namorada. Você economiza e ainda continua com sua alma gêmea! Tanto que o motivo de eu não ter postado esses conselhos antes é para evitar que você caia nessa cilada. Por isso o atraso (proposital, claro) do Flavio Responde.
Espero que estes conselhos tenham serventia. Vamos a luta, guerreiro! Abraço.

Flavio Responde, 1

Há muito eu estava com essa ideia na cabeça de fazer uma coluna semanal para responder as perguntas dos leitores do meu blog, só que eu sempre pensei que eu não tinha muito traquejo para responder à altura das crises existenciais de vocês. Só que um pensamento após uma conversa com uns amigos me permitiu uma reflexão. Hoje você encontra tanta coisa na internet que daqui a pouco não haverá a necessidade de se fazer um curso técnico ou uma faculdade para exercer uma profissão. Até imagino a cena:

- Senhor Flavio, fica tranqüilo, essa sua operação é um procedimento padrão, eu aprendi tudo certinho quando encontrei um tutorial na internet ontem que me ensinou tudo sobre isso, pode ficar tranqüilo, certo?
Peraí, Doutor, internet? O senhor não fez faculdade de medicina?
- Nada! Aprendi tudo sozinho! Faculdade é algo tão velho, tão anos 2000… Besteira! Pode ficar tranqüilo, vamos te dar anestesia total, não vai doer nadinha…
Algumas horas depois:
Doutor, essa operação que o senhor fez era para retirada de amídalas!
- Amídalas? Pensei que era para colocar prótese de silicone nos seios…Não acredito que isso aconteceu de novo! Semana passada eu já matei sem querer aquele outro paciente que chegou aqui com dor de cabeça e eu resolvi abrir a cabeça dele… Ai, ai, que semana! Bem, pelo menos esse daí vai ter o peitoral feminino de homem mais bonito do Brasil. Menos mal.

Já que corremos o sério risco de ter alguns idiotas (ou mais idiotas do que de costume) fazendo trabalhos complexos, me senti na obrigação de iniciar essa tendência, sendo o psicólogo, médico, estilista, professor de química, sexólogo, ou até mesmo advogado de vocês, meus caros leitores.

—–//—–

E já começamos com tudo! Chegou um e-mail para mim (imaginário, é claro) há uns três dias atrás com uma questão de ordem sentimental. Aproveitando a iminência dos Dia dos Namorados, vamos a pergunta:

“Olá Flavio, tudo bem? Eu sou muito fã do seu blog, adoro seu trabalho. Mas resolvi te escrever por estar com uma dúvida, e penso que você é pessoa certa para me dar uma luz. Seguinte: tenho uma namorada, e gosto muito dela. Mas estou nervoso porque esse é o nosso primeiro Dia dos Namorados juntos e ela é minha primeira namorada, então queria saber o que posso fazer para tornar esse Dia dos Namorados especial para mim e para minha amada?”

Zezinho das Couve, Nossa Senhora do Mato Adentro, RO.

Seguinte, Zezinho, não sei como vocês resolvem isso em Mato Adentro, mas no Encantado (bairro em que fui criado aqui no Rio de Janeiro), faríamos o seguinte: chama ela para sair. Leva ela para assistir uma comédia romântica, depois um jantar romântico, e, para terminar com chave de ouro, um motel. Não economize. Feche o cinema só para vocês dois, peça o melhor vinho e o melhor prato do restaurante, e reserve a melhor suíte do motel, para aquela noite de sexo selvagem. Tome Viagra se for preciso. Mas aí você deve estar pensando “Mas Flavio, eu não tenho dinheiro para isso tudo!”, mas é aí que mora o segredo. Pague tudo com o cartão dela. Com certeza ela vai lembrar de você para o resto da vida! Abraço.

Quer mandar sua pergunta? Mande pelos comentários dos textos do blog, pela comunidade do blog no Orkut, ou pelo Twitter (www.twitter.com/flaviobraga).

NadaCrônicas, 38

Ou Ainda Um Dia (Quase) Ruim

Seu dia tinha tudo para ser uma completa porcaria, como de costume: acordou atrasado para o trabalho que odeia, e nem pôde se dar ao luxo de tomar um cafezinho. Maldita vida de homem moderno. Já atrasado, no caminho para o ponto de ônibus, sentiu que tinha esquecido o celular em casa. Isso sim é o fim! O que faria um homem moderno, numa cidade grande, sem celular (mesmo que ele fique sem tocar o dia todo)? Nada. Mais cinco minutos de atraso voltando em casa para pegar o celular, que acabou lhe custando a perda do ônibus. O próximo ônibus só viria em dez, quinze minutos, talvez. O engarrafamento está monstro nessa cidade-monstro. E dá-lhe espera, e quando o ônibus enfim chega, há um mar de gente para entrar nele. Já um tanto resignado, pensava na tragicomédia que era sua vida, pois sempre sonhou em andar numa Mercedes, e agora estava em uma, com motorista e tudo. Não, não estava num carro caríssimo da Mercedes-Benz, mas sim num ônibus da Mercedes-Benz. É quase tudo a mesma coisa, a diferença é que o carro carrega um rico, e o ônibus carrega uns 70 ou 80 pobres.
E sim, o trânsito realmente está péssimo. Será acidente? Um buraco? Alienígenas que resolveram dominar a Terra justamente numa segunda-feira de manhã? Não. É que todo mundo quer ter um carro e sair para o trabalho com ele, aí dá nisso. “Do jeito que as coisas andam, a indústria automobilística teria que fazer um carro que tivesse velocidade máxima de 20 ou 30 km/h, pois é nessa velocidade que os carros andam por aqui”, pensou ele, com um ar filosofal.
E o trabalho? Que maravilha! Chegar atrasado e receber uma bronca descomunal do patrão, que gostoso! Mais gostoso que isso é ficar umas oito horas, sentado na frente de um computador, para fazer um trabalho que uma criança pode fazer em duas horas. E mais gostoso que isso tudo, era parar para pensar que é fim de mês e o seu salário é equivalente a, sei lá, duas horas de trabalho por dia, dividido pela metade, pois até uma criança pode fazer um trabalho desses. Marx já falava da mais-valia, lá no século XIX. É, não mudou muita coisa. Podia apostar que seu patrão guarda numa gaveta do escritório um chicote. Vai que rasgam as leis trabalhistas um dia desses, sem mais nem menos, vai saber.
E em Brasília, são 17 horas. Hora de sair do castigo, digo, do trabalho. E todo aquele sacrifício que ele fez para ir ao trabalho, seria refeito, mas para voltar para casa. Pontos cheios, pessoas cansadas, engarrafamento monstro, o de sempre. E nem uma batidinha de carro para distrair a viagem! Que pena! Mas foi o que eu disse no início da história, seu dia tinha tudo para ser uma completa porcaria, como de costume. Tinha:
- Oi amor, tudo bem? Como foi o trabalho?
- Normal. O de sempre…
- Sei…
- Mmmmm…
- O que houve, homem?
Nada, é que eu te amo.
- Gracinha! Eu te amo também.
E isso era mais do que o suficiente para fazer os dias dele um eterno céu de brigadeiro. O amor, meus caros! Ai, o amor!

Sobre Relacionamentos Abertos

Longe de mim ser possessivo, ainda mais se tratando de pessoas. Ninguém me pertence, assim como não sou propriedade de ninguém. Mas tem horas que exageram. E uma coisa que eu nunca entendi direito é esse fenômeno dos relacionamentos abertos, ou seja, tem um companheiro que te dá carinho, atenção, e na rua tem outras pessoas que te dão outras coisas que a pessoa que está em casa não dá porque está com enxaqueca. E o pior é que essa pessoa que te dá carinho, atenção, mas dorme de calça jeans, sabe que seu companheiro está comendo fora de casa, se é que vocês me entendem, e nem liga. Juro para vocês, eu tentei ver a praticidade disso tudo, mas vai saber, sou um homem das cavernas.
Estava um dia pensando com meus amigos imaginários, que aparecem por aqui apenas quando tomo meus remédios de tarja preta, a respeito do relacionamento aberto. Foi uma conversa interessante, franca, porém breve (eles sempre se sentem ofendidos com minhas ideias um tanto radicais) como todas as conversas que eu tenho com eles. Foi mais ou menos assim:
Mas para quê me serve um relacionamento aberto? Se eu quero me relacionar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, por quê ficar preso num relacionamento, mesmo que ele seja aberto?
- Ué, é que o relacionamento aberto une o útil ao agradável, porque você faz sexo com meio mundo sem culpa, mas na hora em que bater a solidão, sempre tem alguém que pode te oferecer carinho, sabe?
- Mas se você é solteiro, você pode sair pegando meio mundo sem culpa.
- E nas horas em que bater a solidão?
Arruma um gato, um cachorro, um hamster pra fazer companhia, sei lá.
E eles foram embora, já que se sentiram ofendidos com isso.
E antes que os “muderninhos” venham me falar que podemos amar as pessoas de formas diferentes, digo-lhes para não distorcer isso. Você ama sua mãe, seus amigos e sua mulher de formas diferentes, mas mesmo assim os ama e não é nenhuma bagunça. Penso que, se você se dispõe a ter um relacionamento monogâmico com uma pessoa, é porque você está disposto a encarar essa. É aquela pessoa e ponto, fidelidade enquanto durar. Agora, se você está com o “espírito Zé Mayer pegador de Helenas das novelas das 8”, nem tente embarcar num relacionamento, porque mais cedo ou mais tarde, por mais que esse relacionamento seja aberto, vai rolar ciúme, e vai terminar mal. Então para o bem da Humanidade, fique solteiro. Simples, ou um ou outro, até porque quem pretende ter tudo, acaba sem nada, nem com um hamster para fazer companhia. Mas, sabe como que é, sou homem das cavernas, possessivo, sou antiquado… Ainda bem. Ainda bem!

Pra Ser Feliz

Penso que nós vivemos em dias estranhos. Um negão é o homem mais poderoso do mundo, o Botafogo está a uns três ou quatro jogos sem perder e a felicidade nunca esteve tão fora de moda. Isso mesmo. Ser feliz é, no mundo de hoje, quase crime inafiançável. Eu sei, tem gente que busca a felicidade material, outros a espiritual, mas seja qual for o tipo de felicidade que nós seguimos, é difícil de qualquer jeito. Penso que a graça está no perseguir essa felicidade. Se vamos alcançar ou não, são outros quinhentos.
Mas como eu disse, são dias estranhos. Os homens depilando os peitos e as mulheres querendo ter cavanhaque, e a felicidade mais fora de moda do que calças boca-de-sino. A onda é ser triste, até porque, para se alcançar a tristeza é bem mais fácil que alcançar a felicidade, é só falar com uma voz chorosa, derramar umas lágrimas e somos “Os” sofredores da vez. Por mais que tenham 365 dias de céu de brigadeiro, o céu do novo milênio é de nuvens carregadas, plúmbeas, com eventuais tempestades. Há uns dias eu fiz uma pesquisa, no “olhômetro” mesmo, para ver qual é a expressão das pessoas nas ruas. Não encontrei um sorriso. Uns ficam com aquela cara de medo, como se o Bin Laden estivesse de mudança para a vizinhança, outros ficam com aquela cara de “Rambo no meio da selva lá dos cafundós do Sudeste Asiático com uma faca Guinso nos dentes disposto a matar os malditos vietcongues”, a maioria tem cara de bunda por natureza, mas ninguém esboçou um sorriso. Vai saber, é o stress da vida moderna, ou são as dívidas e as dúvidas, ou o casamento ruim, ou é onda mesmo. Experimente sair de casa com o espírito leve. Mais do que isso, com o espírito leve e a cara de espírito leve. Eu fiz esse teste. Todos me olhavam. Até que eu cheguei no lugar aonde eu iria e encontrei um conhecido:
- Fala.
- Fala.
- Tranquilão?
- To, e tu?
- Tudo normal.
Então pra quê esse sorriso na cara?
- Nada.
- Sério, que foi? To sujo?
- Não, não é nada.
- Você tá rindo da minha cara, porra?
- Não to, cara, calma… Não é nada… Peraí, rapaz, deixa esse pé-de-cabra aí…
Tive que sair correndo. O sorriso foi desfeito. No seu lugar surgiu a cara de medo, para não surgir no lugar do meu sorriso sérias lesões e hematomas.
Isso é para exemplificar para vocês como ser feliz, ou o simples fato de passar autoconfiança pode ser ruim nos dias de hoje. O combustível do mundo não é o petróleo, é a tristeza. Todo mundo de preto (para parecer triste E magro, porque ser magro também é “A” onda!), escutando música triste, comprando produtos para pessoas inseguras e tristes, necessariamente nessa ordem. Num mundo que anda tão “politicamente correto”, onde não podemos chamar nosso amigo negão de “negão”, nem o viado do vizinho de “viado”, nem aquela velha carcomida e mal-comida de “velha carcomida e mal-comida”, parece mais que estamos numa era reacionária, em que o ápice do radicalismo é só ser feliz.

Eu Tava Pensando…

laerte

Ideias – sejam boas ou ruins – não tem hora, nem lugar para surgirem, disso todo mundo sabe. Mas tem horas em que a cabeça parece estar mais tranquila para pensar na vida. Eu mesmo costumo ter meus “insights” quando estou tomando banho, lavando louça, antes de dormir (ou dormindo mesmo), até mesmo no mercado. Não, eu não tenho nenhuma teoria científica para explicar esse fenômeno, do porque que comigo boa parte das minhas idéias surgem quando estou fazendo uma dessas coisas. Pode ser que umas são coisas chatas de fazer, ou é o contato da água que faz com que libere alguma coisa dentro da cabeça que faça a gente pensar, realmente não sei. Mas que é engraçado, é.
Já me flagrei pensando em coisas essenciais para minha vida enquanto estava no banho, por exemplo. Foi algo como “estou precisando trabalhar com o que gosto – deixa eu passar o shampoo, merda de cabelo grande –, essa vida não é para mim – cadê o sabonete? -,essa vida não ta me agradando – nem o cheiro do meu sovaco, cruzes!”. É estranho porque a cabeça está ocupada com uma tarefa e você está focado com todas suas forças em outra tarefa completamente diferente.
E tem horas que conto minha fortuna lavando a louça, mesmo que eu só saiba contar até 17 e que minha fortuna não seja algo que passe de, sei lá, r$ 17. Muitos dos meus melhores textos surgiram naquele momento antes de dormir. Era algo como “essa idéia é muito boa, vou ver se lembro dela amanhã”. Músicas surgiram enquanto eu estava dormindo. Sonhei com elas, com todo o processo, desde escrever no meu caderno de rascunhos até tocá-la. Toda essa  dúvida talvez tenha alguma explicação psicológica, talvez seja uma espécie de “ato falho” da cabeça, não sei. O esquisito é que se eu tentar repetir esse hábito de pensar em outras coisas enquanto estou fazendo outras tarefas que não sejam essas que citei para vocês, a coisa fica muito complicada, constrangedora até, como aconteceu comigo há umas semanas atrás, numa fila para tirar xerox de umas provas. Foi mais ou menos assim que cheguei para o rapaz da copiadora:
- Boa tarde, xereca para mim?
- Quê?
- Opa, desculpa, xeroca para mim? Eu tava com a cabeça em outra coisa.
Por pouco ele não diz que eu estava com as duas cabeças em outras coisas. Melhor assim.
Por isso que falo que a cabeça é coisa muito estranha.

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