Uhul!

Aqui estou, a beira do precipício.
Não sei o que me aguarda lá embaixo. Mas não me falta vontade de pular. Quero pular, mesmo que só esteja protegido por um barbante de padaria e pelo meu cabelo black power. Mas uma coisa é certa, vou pular. O que vou encontrar lá embaixo é conseqüência, eu escolhi, eu me garanto. É melhor do que não pular e ficar com medo a minha vida toda. Não me dou o benefício da dúvida. Pode ser que tenham estacas pontiagudas que vão me ferir para sempre, pode ser que eu encontre todo o sentido da minha vida por lá, as chances são as mesmas, meio a meio.
Fechar os olhos quando pular? Para quê? Eu quero ver a vista enquanto me jogo de cabeça!

NadaCrônicas, 37

Aposto que esse não é o padrão altíssimo de mulher com beleza e classe que o Seu Pinto está acostumado…

Ou Ainda De Papo Com Seu Pinto

- E essa daí?
- Não.
- Por quê?
- Porra, tem bigode, cara, cruzes! Bigode!
O que tem um pouco de pêlo? É charmoso.
- Pêlo na cara de mulher? E não é um fio, é um bigode, cara! Bigode só é charmoso para um ator pornô mexicano dos anos 1980.
- Mas a bundinha…
- A bundinha até que não é de se jogar fora, mas o bigode acaba com tudo.
- Tá bom, tá bom, e essa agora?
- Bonita. Até que é um doce.
- E…
- E sem sal.
Sem sal? Você só pode tá brincando. Rapaz, coloca um chantilly, um chocolate que tá tudo certo.
- Cara, chantilly, chocolate, é tudo doce. Eu te disse que ela é um doce, mas é sem sal.
- Sal, chocolate, tudo isso aí é comestível, e se come do mesmo jeito, se é que você me entende. E essa que ta passando agora? Cabelos cacheados…
- … E cheio de creme. Não gosto de mulher que enche o cabelo de creme.
- Você é complicado, hein! E essa agora que ta vindo aí, tem cabelo lisinho, deve ter ascendência indígena, oriental, ou passou a prancha no cabelo, que seja. Mas o cabelo é liso!
- Quem te disse que gosto de cabelo liso?
- Ué, você não gosta de cabelo cacheado, então…
- Eu não disse que não gostava de cabelo cacheado. E cabelo liso escorrega demais, de repente você quer dar aquela puxadinha de cabelo e o cabelo foge da mão, saca? A parada é cabelo misto, seja lá o que isso significa.
- Vem cá, você é cabelereiro agora? Você ta meio estranho, isso sim. Se você continuar assim vou pensar que você é chegado num careca, e carecas não fazem meu tipo.
Não, cara, é preferência. Você não vai num cinema assistir qualquer filme, por exemplo. Vai assistir um que faz seu estilo. Mulher é a mesma coisa, com a diferença que ir ao cinema é muito mais barato.
- Sei. E aquela ruiva do lado da de vestido preto?
- É um escocês de kilt e um padre, cara.
- Ah. Desculpa, é que às vezes me confundo.

Preto, Pobre, Mora Mal e… Ph.D

É o microondas que congela, a geladeira que deixa a água quente, o guarda-chuvas com goteira, o tênis que não se pode usar em dias de chuva, a televisão que a imagem não é boa (mas o som é melhor até do que o do rádio), a torneira que não pode ser ligada quando alguém está tomando banho quente, é o computador que te obriga a fazer uma tarefa de cada vez… Mas, bem ou mal, tudo funciona, e para tudo que não funciona direito, há de se ter um jeitinho. Ser pobre é mais do que destino, é mais do que a pura e simples falta de dinheiro, é quase como fazer um pós-doutorado em gambiarra.

NadaCrônicas, 36

 

Ou Ainda O Telefone

De um lado, eu: 1,80 e alguma coisinha, 70 quilos, 20 e poucos anos de vitórias, derrotas e empates. Do outro lado, o telefone: entre 10 e 15 centímetros, não deve pesar nem cinqüenta gramas, tira fotos, grava, até serve para fazer e receber ligações. E eu o encaro. E ele me encara. E eu o encaro de novo. E ele me encara. O dia todo. Eu quero que ele toque. Ou não. Ele parece que não quer tocar. Ou não. São 14:39. O dia até aqui passou devagar, ainda mais porque eu confiro o horário de dois em dois minutos. No celular, claro. É que eu precisava de uma desculpa para ver se não tinha perdido nenhuma ligação.
Até que ele toca. Número não identificado.
- Alô.
Olá, boa tarde, eu represento o Banco Tal, senhor Flavio, queria saber se o senhor quer estar recebendo o nosso cartão de crédito.
- Não.
- Posso saber o motivo?
- É que eu devo tanto, mas tanto, que se eu chamar alguém de “meu bem”, o banco vem e toma.
- Mas o senhor vai ter um limite de r$ 800! É uma oportunidade e tanto!
- É sim, uma oportunidade e tanto pro seu chefe, o dono do Banco Tal, me arrancar até as cuecas velhas sem elástico. Tenha uma boa tarde.
É, não era quem eu esperava. Para dizer a verdade, nem sei quem eu espero que me ligue. Enquanto isso, eu encaro o telefone. Ele me encara. O tempo passa, e ele lá, imóvel, sem tocar uma musiquinha, sem dar uma tremidinha, nada. Esse celular tem sangue frio, ou bateria fria, sei lá. Ele no canto dele e eu imaginando se ele tem sangue. Claro que não tem. Eu acho.
Até que ele toca, de novo. Número desconhecido.
- Casa da Salada, qual o pepino?
- Oi?
- Quem é?
Oi, eu queria falar com a Judite, ela se encontra?
- A Judite? Peraí, eu vou chamar.
E deixo passar um minuto e volto ao telefone.
- Alô.
- Judite?
- Não, se bem que é um bom nome para mim quando eu mudar de sexo.
- O quê?
Nada. Ó, a Judite não está.
- Como não está?
- É que esse telefone não é o dela. É engano, minha tia. Tenha uma boa tarde.
Acho que nunca fui tão xingado na minha vida. E nem preciso dizer que não era quem eu esperava, até porque, não espero que ninguém me ligue. Enquanto isso, eu encaro o telefone. E ele me encara. E nada acontece. Aposto se eu desligá-lo, até o Obama me liga. Mas o deixo ligado mesmo assim. Vai que alguém com quem eu quero falar me liga. Vai saber!

Poesia Numa Hora Dessas? (32)

Ou Ainda Um Pequeno Poema Para Um Grande Amor

Se estás longe, sinto-te perto;
Se estás comigo, sinto-me completo.
Te amo.

Morando em Atlântida Você Sabe Como É…

É notório que o Rio de Janeiro para até com um chuvisco de três minutos, mas não lembro de uma chuva ter causado tanto estrago. Nem minha mãe se lembra, e olha que ela tem mais de 30 anos de Rio. Quando digo que estou me sentindo o Aquaman não é brincadeira. O Rio ainda está debaixo d’água. A chuva veio como quem não quer nada no início da tarde da segunda-feira e só agora, fim da manhã e início da tarde de quarta-feira que a chuva parou por um período maior que dez minutos.
Quanto a essa história, todos já conhecem: um rastro de destruição, engarrafamentos, os transportes públicos (que já não são essa beleza toda em dias normais) funcionando precariamente, vidas perdidas, e por aí vai. A primeira coisa que pensamos é colocar a culpa no poder público, até porque é sabido, por exemplo, desde do tempo que se amarrava cachorro com linguiça, que a Praça da Bandeira vira um autêntico piscinão nos dias de chuva um pouco mais forte. “Culpa do governo!”, bradamos todos. Sim, ele tem uma carga enorme de responsabilidade, já que boa parte das medidas ou não saem do papel, ou são eleitoreiras, ou paliativas. O poder público tem que zelar para o bem comum, mas este é usado a exaustão em prol de projetos particulares de nossos políticos e afilhados políticos. Mas temos culpa, e muita. Estamos muito longe de sermos as vítimas dessa história.
A começar, pela nossa educação. Não a educação de cadernos, livros, escola, diploma – é muito fácil colocar a culpa no professor, não é? -, mas a que nós damos e recebemos em casa. Lugar de lixo é no lixo. Ponto. Se você tem o mínimo de senso de higiene, você não sai jogando lixo na sala de sua casa, por exemplo. A cidade (o país, o mundo!) é uma extensão da nossa casa, temos que prezar pela organização do espaço público como prezamos pela organização de nossas casas. Não ache que aquele papelzinho de bala não faz mal algum, porque se ele não faz mal, coisas um pouco maiores, e coisas um pouco maiores que essas um pouco maiores que papel de bala também não vão fazer estrago se jogadas na rua. Mas vemos que não é assim.
Nossa consciência política também conta. Vamos tentar votar em quem tem idéias boas E possíveis. Megalomaníacos fizeram as besteiras deles para colocar seus nomes na posteridade, superfaturaram obras, e estamos aqui, a Deus-dará, debaixo d’água, chorando pelo prejuízo material, pessoal e/ou sentimental. Votar em quem é mais bonitinho, ou em quem rouba menos nos leva a isso. Os políticos corruptos são o nosso espelho. Eles mandam e desmandam em causa própria porque somos covardes. Todos falam que precisamos mudar o Brasil, que “este país está uma vergonha”, e quantos estão nas ruas batendo panelas contra os Maluf, os Garotinho, os Sarney da vida? Quantos de nós se importam (e até se engajam, vejam só!) com quem vota no BBB e só decidem votar em fulano e sicrano nas eleições na última hora, mal sabendo o nome do sujeito? É como diz minha amada mãe: “aos porcos jogamos lavagem”. Sim, somos porcos, de dar nojo. Reféns de demagogos porque deixamos, nos acomodamos a ter pouco – Isso quando temos! – e até fazemos graça da nossa desgraça. Mudar o nosso destino dá trabalho, não é?
E posso prever, mesmo sem ter poderes mágicos ou paranormais, toda a comoção e trabalho que o sofrimento alheio vai nos proporcionar, faremos campanhas de doação de roupas, alimentos, remédios (o que não é errado, muito pelo contrário, é o mínimo que podemos fazer), mas daqui a duas semanas ou menos, quando tudo voltar ao normal, quando a água baixar, vamos esquecer de tudo, desde a comoção, passando pela educação, até as cobranças ao poder público. Isso até a tragédia bater na nossa porta de novo.

Fazei O Bem…

Não queria ficar falando de coisas que as pessoas podem interpretar como implicância minha, mas eu fiquei profundamente chateado com a atitude de boa parte do time do Santos, que na quinta-feira foi visitar uma instituição de caridade e, ao chegar lá, boa parte do elenco santista decidiu não entrar na instituição, que cuida de deficientes mentais com aquela costumeira dificuldade econômica que muitas dessas instituições convive, por se tratar de uma instituição de orientação espírita. A ala evangélica do elenco – entre eles Robinho, Neymar, Paulo Henrique Ganso, entre muitos outros – ficaram no ônibus do time sob a justificativa da visita ao lar espírita não condizer com a religião deles, que não se sentiriam à vontade em entrar no lugar. Pergunto: então para se fazer caridade precisamos olhar a religião de quem precisa de nossa ajuda? Não só a religião, mas a origem, a classe social, visão política, entre outras coisas? Se as pessoas que estão ali precisam de ajuda é porque nossas autoridades dão as costas para elas enquanto brincam de fazer política, logo, essas pessoas precisam recorrer a essas instituições que, apesar de sempre atravessarem inúmeras dificuldades, sempre recebem de braços abertos e tratam as pessoas com toda dedicação e carinho, e aposto que, ao receber essas pessoas necessitadas, nem perguntam se a religião delas é A ou B. Nos dias de hoje já são escassos os bons exemplos para uma juventude praticamente sem rumo, e justamente os que poderiam dar algum exemplo – já que a maioria absoluta desses jogadores tem uma história de superação, indo contra tudo e todos para alcançar um sonho de infância - dão uma mancada dessa, mas que, infelizmente, vai passar desapercebida frente aos olhos menos atentos (por se tratarem dos atuais queridinhos da mídia especializada em esporte, e da que nem sabe o que é futebol também). Aos Meninos da Vila eu digo: Jesus Cristo não recusava em ajudar as pessoas por serem diferentes dele. Se vocês acreditam na palavra dele, ele pode ser o maior exemplo dentro da própria doutrina religiosa que eles seguem.
Antes que acendam as fogueiras contra mim – ateu herege! -, não quero declarar guerra a nenhuma religião, pois reconheço e respeito (ou ao menos eu tento) respeitar a doutrina religiosa (e política, e até futebolística!) de cada indivíduo. Nem quero dizer que eles SÃO errados e eu SOU o certo. Eu realmente fiquei muito triste ao saber desse fato envolvendo o time do Santos. Justamente o Santos, o time onde o Rei Pelé jogou e irradiou alegria pelo mundo afora (e chegou até a interromper guerra!), e que no momento é o “time da moda” por jogar o futebol mais bonito e vistoso nesta temporada. E mais, num mundo em que a tendência é olharmos cada um para seu umbigo e praticar o famigerado mantra do tal de 50 Cent (“torne-se rico ou morra tentando”), precisamos ajudar quem de fato precisa. Não podemos deixar que idéias tacanhas e/ou interpretações tortas (isso para não dizer preconceito, já que o espiritismo é uma religião como as mais variadas igrejas evangélicas, onde muitas vezes os pastores evangélicos endemonizam de forma absurda as religiões afro-brasileiras) nos impeça de ajudar os mais necessitados. As pessoas necessitadas em geral não escolheram nascer com doenças, ou pobres, ou serem abandonados na infância, ou ainda não terem acesso à educação, ou qualquer outra coisa que lhes coloque numa posição em que precisam contar com a ajuda de outrem. Devemos ajudar os nossos. E os outros também. Nem que sejam nossos maiores inimigos. Apesar do amor ao próximo ser uma coisa simples, muitos que enchem a boca para falar que seguem uma religião ou outra, com um afinco de invejar os 12 apóstolos, não andam praticando.
Como falei anteriormente, esse episódio será esquecido numa velocidade maior do que surgiu, pois são os Meninos da Vila, e não extremistas muçulmanos (já que no mundo ocidental achamos que todos muçulmanos são homens-bomba em potencial), por exemplo. Mas para os olhares mais atentos, é um alerta. Um alerta de que a ignorância está vencendo de goleada, fora o baile.

Não sou o dono da verdade, nem pretendo ser. Estou expondo minha opinião. Aos extremistas, ou a quem não quer acreditar mesmo, antes de me colocarem na fogueira, olhem esses links:

http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Times/Santos/0,,MUL1554212-9874,00-EM+VISITA+A+INSTITUICAO+NA+BAIXADA+BOA+PARTE+DO+ELENCO+DO+PEIXE+FICA+NO+ONI.html

http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Times/Santos/0,,MUL1555492-9874,00.html

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