Eu no Duelos!
Olááááááá Enfermeira!
Fala miguxos.
Voltei com um bom texto ao Duelos Literários, confiram:
http://duelosliterarios.blogspot.com/2010/02/doente-por-flavio-braga.html
Volto depois do carnaval. Ou antes, sei lá. Mas eu volto. Abraço!
Olááááááá Enfermeira!
Fala miguxos.
Voltei com um bom texto ao Duelos Literários, confiram:
http://duelosliterarios.blogspot.com/2010/02/doente-por-flavio-braga.html
Volto depois do carnaval. Ou antes, sei lá. Mas eu volto. Abraço!
Ou Ainda Da Vez Que Visitei o Céu
Sinceramente, nem sei o que me aconteceu naquele dia. Fui dormir como em qualquer outra noite, mas pareceu que eu saí do meu corpo. Vi-me deitado, babando no travesseiro – como sou feio dormindo! – e algo me puxava para cima. Procurei por cordas, asas, até por um elevador, mas eu estava flutuando. Flutuei, flutuei e flutuei até alcançar as nuvens. Verdade, eu tenho que parar de comer feito um condenado antes de dormir, a coisa já está ficando meio estranha.
Até que fiquei na frente de um portão dourado, e um senhor barbudo, simpático até, me olhando:
- Estávamos te esperando! Desculpe a viagem, é que mudamos o programa de satélite que faz essas coisas, tecnologia japonesa, sabe como que é, né…
- M-mas onde estou?
- No Céu.
- Sério?
- Não, na Central do Brasil. Não ta vendo, meu filho? Nuvens, um portão dourado, um velhinho simpático te recebendo…
- São Pedro?
- Sou eu. Prazer.
- Desculpa, é que eu nunca morri antes, eu acho.
- Mas você não morreu.
- Não?
- Não.
- Então o que eu to fazendo aqui? Não sabia que existia Céu para ateus.
- Aí que está a graça. Vocês são os únicos que não se preocupam com recompensas ou castigos depois de morto. Todo mundo reza porque quer vir pro Céu. Fazem o Diabo, mas pensam que rezando está tudo bem. Agora, fazer o bem para os menos afortunados sem esperar recompensas eternas é um ato interessante que merece ser recompensado.
- Faz sentido. É confuso, mas faz sentido. Mas se não morri, o que estou fazendo aqui?
- Sabe aquelas visitas que você faz antes de se mudar para algum lugar? Pois é. Segundo a ordem do Chefe, a gente passou a fazer a mesma coisa. Nós daqui e eles lá embaixo, se é que você me entende. Sabe como que é, mundo capitalista, concorrência, esse blábláblá todo que você está acostumado.
- Significa que vou fazer uma visita ao Céu e ao Inferno?
- Uhum. E quando você morrer de fato, já sabemos para onde você vai. Evita fila, burocracia, essas coisas terrenas.
- Legal…
- Então, que está achando do Céu?
- Sei lá…
- Como assim, “sei lá”? Aqui é divino. De outro mundo!
- Desculpa a sinceridade, é que aqui parece a Quinta da Boa Vista.
- E não é bom? Um lugar bucólico para alguém…
- Bucólico.
- Isso!
- Não me leva a mal não, mas espero que tenha mais coisa para fazer por aqui.
- Ó a vista! Panorâmica! Sua nuvem própria! Delícia!
- É, legal.
- Você gosta de música, né?
- Claro!
- Você pode aprender a tocar harpa.
- Aí enfraquece, Pedrão.
- Por quê?
- Passei metade da minha vida tentando aprender a tocar violão para fazer um barulhinho legal numa guitarra, e o senhor me vem com harpa?
- É tudo de corda, faz diferença?
- Faz.
- É que o barulho de guitarra é meio infernal. Aqui somos celestiais! Celestiais, Flavio!
- Entendi.
- Ó, o Diabo ta aí no portão te esperando.
- Mas quero ir pro Inferno não!
- Por quê? Só porque todas as pessoas de índole duvidosa estão por lá?
- Não.
- Só porque você não lida com a idéia de ameaça diária de violência?
- Não. Eu estou acostumado com pessoas de índole duvidosa e com ameaças diárias de violência. Sou do Rio de Janeiro.
- Então porquê você não quer nem conhecer o Inferno?
- Porque não agüento com lugar quente. E também tem outra justificativa.
- Qual?
- Cansei de ser underground. Quando começo a tocar harpa?
Para onde fica o longe? Para a direita, para a esquerda, daqui a algumas estações de trem? Quem sabe? O longe é mais do que um lugar, o longe é o sentido de tudo. Ora, o longe, desconhecido, que a gente vive escutando que é muito mais longe do que a gente imagina, pode estar na verdade a dois segundos no futuro. Muitos acham que não irão muito longe na vida. São os que acabam indo longe mesmo, porque passam a ter consciência de que o céu é o limite. Os que sempre acham que vão longe são os que vão longe demais, só que na própria decepção, porque pensam que a sorte é o bastante. E não é. Nunca.
E quanto à distância entre as pessoas? A gente vive esbarrando em um bocado de gente, mas sempre se acha sozinho. A solidão em meio à multidão é a pior coisa. Uma cidade enorme e ninguém para nos escutar. Um mundo com bilhões de pessoas e ninguém para dar o mínimo de atenção para a gente. Minha mãe sempre me disse: quantidade não é qualidade. Mais vale meia dúzia de amigos em que a gente pode confiar em qualquer circunstância do que ter um milhão de amigos e na hora em que temos que contar com pelo menos um deles, todos somem. Amigos são mais raros que água potável, e tem gente que ainda desperdiça, água E amizade. Depois reclama da solidão. É uma coisa complexa.
O longe para mim não é o mesmo longe para você, com certeza. E se eu morar onde todos consideram longe? São os outros que estão longe de mim, não o contrário. Depende do ponto de partida e dos pontos de referências. Em certos casos nem a distância impede coisas mágicas, como amar uma pessoa que mora às vezes do outro lado do mundo. Depende do tamanho do seu mundo. Se o seu mundo é o suficiente para separar alguém especial de você, desista de viver. Caso contrário, nem quilômetros e quilômetros são capazes de impedir o amor.
O longe é inimigo do tempo e da distância.
Atenção: se você conhece alguém que mora lá para os lados de Plutão (ou de Seropédica, tanto faz, é tudo perto - um do outro, claro), essa pessoa mora longe mesmo.
A falta de inspiração é uma companheira constante na vida de um escritor. Não tem jeito. Um dia a dona Inspiração fala que não vai poder comparecer porque está com dor-de-cabeça ou porque está presa num engarrafamento-monstro. Então, resta ao escritor esperar por uma benção divina. Se ele não acredita nessas coisas, é nessas horas que ele passa a acreditar. Quer ver um escritor ateu se converter em dois segundos? Das duas, uma: ou ponha fogo na casa dele ou torça pra ele não ter inspiração.
É dura a rotina quando não se está inspirado. A gente fica revirando nossos pensamentos, tentando encontrar algo que preste. Revira, revira, e re-revira, e revira de novo. Não acha. Tudo bem. Já que cabeça vazia é oficina do Diabo, quem sabe ele não dá uma idéia dos infernos? Diante de um quadro tão desesperador, o escritor apela para tudo. E haja café. E haja cigarro. E haja insônia. E haja paciência. A caneta já passeou por boa parte do corpo do escritor: da mão para a boca, da boca para detrás da orelha, da orelha ela sai para coçar a cabeça, da cabeça volta para a boca, da boca vai acabar jogada num canto qualquer, porque ele está em vias de desistir. É um pobre coitado. Sem inspiração, sem dinheiro, mal lido, muitas vezes mal interpretado e na maioria das vezes mal amado, e ainda pode acabar doente por conta dessa maldita caneta.
Será que sai um poema? Não, não sai. As rimas deixaram um bilhete dizendo que foram ali na esquina comprar um maço de cigarro e voltam só daqui a seis meses. E uma crônica? De jeito nenhum. Dona Crônica, preguiçosa que só ela, está neste momento dormindo e se for acordada ela deixará de ser uma dama e acabará arrumando uma confusão daquelas dignas das mulheres barraqueiras. Será que não sai nada? Não sai. A Inspiração tem espírito de moleque, daqueles bem boca-suja e mal-criado. Agora, por exemplo, o escritor, completamente exausto, olha para um canto da sala e vê a Inspiração, rindo da cara dele e ainda fazendo aquele gesto brasileiríssimo da mão espalmada batendo na outra fechada. O escritor anda vendo muita coisa. Precisa parar de ingerir essas substâncias proibidas. Se ele é careta, é melhor procurar ajuda médica. Coitado. Está até tendo visões. Precisa mesmo é ter uma vida social, já que seus melhores amigos, uns escritores igual a ele, como Lima Barreto, Jorge Amado, Machado de Assis e outros estão meio… meio…meio… como posso dizer? Estão meio mortos para sair para tomar umas cervejas. É nessas horas que o escritor se entrega. O dia amanhecendo e o papel em branco. Então ele usa o último recurso, que todos os escritores odeiam usar, mas sempre usam, devido à falta de inspiração ou a uma ressaca: escreve sobre a sua falta de inspiração.