Posts Tagged ‘capitalismo selvagem’

Saudades do SPC…

“Quem já esteve na lista negra do SPC?”, pergunta a professora para sua turma do jardim de infância.

É impressionante a ânsia dos bancos em ganharem dinheiro, eles querem que você se afunde em dívidas eternas com eles, independentemente de você ser um notório devedor ou se você tem uma austeridade financeira de um ministro da Economia num governo do PSDB. Se você já está afundado em dívidas com eles, eles mesmos tratam de fazer você vender até as calças que veste, já que eles insistem em te mandar mais um cartão que te oferece várias vantagens, brindes, prêmios, prostitutas russas de luxo e outras coisas que você tem a esperança de ganhar (além de mais uma dívida) ao aceitar mais um cartão de crédito VIP Mothafucka Titanium Golden. E, você, inocente que é, cai nessa armadilha.
Aprendida a lição, depois, obviamente, de parcelar aquela fatura - que faria a dívida de um país em desenvolvimento ser comparada com uma pindureta no bar da esquina - em prestações a perder de vista, você promete que vai controlar seus gastos, vai economizar um dinheiro para o caso de uma necessidade. Só que o que você pensa ser uma solução acaba sendo um problema, pois o banco sabe que você está deixando uma reserva de dinheiro na sua conta e virou um bom pagador. Quando você menos espera o banco está te procurando para te oferecer mais um cartão de crédito, um plano de capitalização, até plano funerário. É tudo uma maravilha, é tudo muito bom, e a gente chega à conclusão de que é difícil resistir ao canto da sereia do SPC.
Por essas e por outras que vou guardar meu dinheiro no colchão.

Hora de Faturar Com O Merchan…

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Vale a pena dar uma conferida! Acessem!

Abraço!

Poesia Numa Hora Dessas? (28)

Ou Ainda Meu Dinheiro E Eu, O P(r)o(bl)ema

Foi-se cedo
Não me pediu café
Deu seu recado de pé mesmo,
só para dar mais drama ao enredo.
Não fico mais um segundo!
- disse ele -
Mas o que será de meu mundo
sem a ajuda dele?
E ele, com seu ar filosofal
E profético
(mas beirando ao patético)
tratou de diminuir tamanho mal:
“Vou mas já volto
E de repente até me empolgo
E fico mais duas horas da próxima vez.”
Sentiste, leitor, o mal que ele me fez?
E todo dia 5
Sinto-me como uma pessoa sem cinto:
Sempre com as calças na mão.

NadaCrônicas, 33

Ou Ainda Da Vez Que Visitei o Céu

Sinceramente, nem sei o que me aconteceu naquele dia. Fui dormir como em qualquer outra noite, mas pareceu que eu saí do meu corpo. Vi-me deitado, babando no travesseiro – como sou feio dormindo! – e algo me puxava para cima. Procurei por cordas, asas, até por um elevador, mas eu estava flutuando. Flutuei, flutuei e flutuei até alcançar as nuvens. Verdade, eu tenho que parar de comer feito um condenado antes de dormir, a coisa já está ficando meio estranha.
Até que fiquei na frente de um portão dourado, e um senhor barbudo, simpático até, me olhando:
- Estávamos te esperando! Desculpe a viagem, é que mudamos o programa de satélite que faz essas coisas, tecnologia japonesa, sabe como que é, né…
- M-mas onde estou?
No Céu.
- Sério?
- Não, na Central do Brasil. Não ta vendo, meu filho? Nuvens, um portão dourado, um velhinho simpático te recebendo…
- São Pedro?
- Sou eu. Prazer.
- Desculpa, é que eu nunca morri antes, eu acho.
- Mas você não morreu.
- Não?
- Não.
- Então o que eu to fazendo aqui? Não sabia que existia Céu para ateus.
- Aí que está a graça. Vocês são os únicos que não se preocupam com recompensas ou castigos depois de morto. Todo mundo reza porque quer vir pro Céu. Fazem o Diabo, mas pensam que rezando está tudo bem. Agora, fazer o bem para os menos afortunados sem esperar recompensas eternas é um ato interessante que merece ser recompensado.
- Faz sentido. É confuso, mas faz sentido. Mas se não morri, o que estou fazendo aqui?
Sabe aquelas visitas que você faz antes de se mudar para algum lugar? Pois é. Segundo a ordem do Chefe, a gente passou a fazer a mesma coisa. Nós daqui e eles lá embaixo, se é que você me entende. Sabe como que é, mundo capitalista, concorrência, esse blábláblá todo que você está acostumado.
- Significa que vou fazer uma visita ao Céu e ao Inferno?
- Uhum. E quando você morrer de fato, já sabemos para onde você vai. Evita fila, burocracia, essas coisas terrenas.
- Legal…
- Então, que está achando do Céu?
- Sei lá…
Como assim, “sei lá”? Aqui é divino. De outro mundo!
- Desculpa a sinceridade, é que aqui parece a Quinta da Boa Vista.
- E não é bom? Um lugar bucólico para alguém…
- Bucólico.
- Isso!
- Não me leva a mal não, mas espero que tenha mais coisa para fazer por aqui.
- Ó a vista! Panorâmica! Sua nuvem própria! Delícia!
- É, legal.
- Você gosta de música, né?
- Claro!
Você pode aprender a tocar harpa.
- Aí enfraquece, Pedrão.
- Por quê?
- Passei metade da minha vida tentando aprender a tocar violão para fazer um barulhinho legal numa guitarra, e o senhor me vem com harpa?
- É tudo de corda, faz diferença?
- Faz.
- É que o barulho de guitarra é meio infernal. Aqui somos celestiais! Celestiais, Flavio!
- Entendi.
- Ó, o Diabo ta aí no portão te esperando.
- Mas quero ir pro Inferno não!
- Por quê? Só porque todas as pessoas de índole duvidosa estão por lá?
- Não.
- Só porque você não lida com a idéia de ameaça diária de violência?
- Não. Eu estou acostumado com pessoas de índole duvidosa e com ameaças diárias de violência. Sou do Rio de Janeiro.
- Então porquê você não quer nem conhecer o Inferno?
- Porque não agüento com lugar quente. E também tem outra justificativa.
- Qual?
Cansei de ser underground. Quando começo a tocar harpa?

Já É?

Memórias Infantis de Um Homem Infantil, 1

Pede dinheiro pra vovó agora, malandrão!

Uma coisa que sempre achei engraçado (e ainda acho) é a mania dos familiares mais velhos – desde pais, avós, tios e até primos! – de se sentirem na obrigação de dar dinheiro para os mais novos, meio que sem motivo. Uma das lembranças mais surreais que tenho é da época em que meu avô, coitado, que estava muito doente e gastando uma fortuna em remédio, quando eu ia visitá-lo, ele me dava dinheiro. Dizia ele que era para o ônibus, mas só se fosse para um ônibus para a Região dos Lagos. R$ 20! Olha que nessa época eu já trabalhava, devia ter meus 18, 19 anos. Claro, não ganhava – e nem ganho, ainda – uma fortuna, mas já tinha meu próprio dinheirinho para ir visitá-lo. E quando ele esquecia, a minha finada avó sempre falava, “Bruno, o dinheiro do ônibus para o Flavinho!”, e lá ia ele me dar o dinheiro. Se eu os visitasse pelo menos umas três vezes por semana, desde que nasci até meus 20 anos, descontando os dois anos que morei por lá, eu seria o primeiro da minha turma de amigos que tinha se aposentado ao terminar o ensino médio e antes de terminar a faculdade. Maldita hora para não ser tão ligado à família!

NadaCrônicas, 31

Ou ainda A Despedida

- Tenho que ir.
- O quê? Já?
- Uhum.
- Mas ainda está cedo!
Desculpa, mas não posso ficar mais.
- Mas é só isso?
- Como assim?
- Espero você durante o mês todo, você chega e já vai embora? Não tem nem dois dias que você chegou.
- Desculpa.
- Desculpa? É só isso que você me fala?
Uhum. Sempre te disse que eu não era essas coisas todas. Não tenho culpa se você é tão teimoso.
- Eu sou teimoso porque você sabe que não posso viver sem você! Por mais que eu queira não depender de você, você sabe que é importante para mim. E sempre é assim: você vem, fica um, dois dias, no máximo, e vai embora mais rápido do que pobre atrasado para o trabalho atrás do ônibus.
- Flavio…
- Hum.
- Você É um pobre que corre atrás de ônibus.
- Eu sei, estou te falando por experiência própria.
- Sei… Desculpa, está na minha hora. Acho que fiquei até tempo demais esse mês.
- Então é assim…
- Sim, é assim. Infelizmente.
Você volta?
- Você sabe que volto no início do mês que vem. Tchau.
- Tchau, Salário.

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