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Poesia Numa Hora Dessas? (28)

Ou Ainda Meu Dinheiro E Eu, O P(r)o(bl)ema

Foi-se cedo
Não me pediu café
Deu seu recado de pé mesmo,
só para dar mais drama ao enredo.
Não fico mais um segundo!
- disse ele -
Mas o que será de meu mundo
sem a ajuda dele?
E ele, com seu ar filosofal
E profético
(mas beirando ao patético)
tratou de diminuir tamanho mal:
“Vou mas já volto
E de repente até me empolgo
E fico mais duas horas da próxima vez.”
Sentiste, leitor, o mal que ele me fez?
E todo dia 5
Sinto-me como uma pessoa sem cinto:
Sempre com as calças na mão.

NadaCrônicas, 33

Ou Ainda Da Vez Que Visitei o Céu

Sinceramente, nem sei o que me aconteceu naquele dia. Fui dormir como em qualquer outra noite, mas pareceu que eu saí do meu corpo. Vi-me deitado, babando no travesseiro – como sou feio dormindo! – e algo me puxava para cima. Procurei por cordas, asas, até por um elevador, mas eu estava flutuando. Flutuei, flutuei e flutuei até alcançar as nuvens. Verdade, eu tenho que parar de comer feito um condenado antes de dormir, a coisa já está ficando meio estranha.
Até que fiquei na frente de um portão dourado, e um senhor barbudo, simpático até, me olhando:
- Estávamos te esperando! Desculpe a viagem, é que mudamos o programa de satélite que faz essas coisas, tecnologia japonesa, sabe como que é, né…
- M-mas onde estou?
No Céu.
- Sério?
- Não, na Central do Brasil. Não ta vendo, meu filho? Nuvens, um portão dourado, um velhinho simpático te recebendo…
- São Pedro?
- Sou eu. Prazer.
- Desculpa, é que eu nunca morri antes, eu acho.
- Mas você não morreu.
- Não?
- Não.
- Então o que eu to fazendo aqui? Não sabia que existia Céu para ateus.
- Aí que está a graça. Vocês são os únicos que não se preocupam com recompensas ou castigos depois de morto. Todo mundo reza porque quer vir pro Céu. Fazem o Diabo, mas pensam que rezando está tudo bem. Agora, fazer o bem para os menos afortunados sem esperar recompensas eternas é um ato interessante que merece ser recompensado.
- Faz sentido. É confuso, mas faz sentido. Mas se não morri, o que estou fazendo aqui?
Sabe aquelas visitas que você faz antes de se mudar para algum lugar? Pois é. Segundo a ordem do Chefe, a gente passou a fazer a mesma coisa. Nós daqui e eles lá embaixo, se é que você me entende. Sabe como que é, mundo capitalista, concorrência, esse blábláblá todo que você está acostumado.
- Significa que vou fazer uma visita ao Céu e ao Inferno?
- Uhum. E quando você morrer de fato, já sabemos para onde você vai. Evita fila, burocracia, essas coisas terrenas.
- Legal…
- Então, que está achando do Céu?
- Sei lá…
Como assim, “sei lá”? Aqui é divino. De outro mundo!
- Desculpa a sinceridade, é que aqui parece a Quinta da Boa Vista.
- E não é bom? Um lugar bucólico para alguém…
- Bucólico.
- Isso!
- Não me leva a mal não, mas espero que tenha mais coisa para fazer por aqui.
- Ó a vista! Panorâmica! Sua nuvem própria! Delícia!
- É, legal.
- Você gosta de música, né?
- Claro!
Você pode aprender a tocar harpa.
- Aí enfraquece, Pedrão.
- Por quê?
- Passei metade da minha vida tentando aprender a tocar violão para fazer um barulhinho legal numa guitarra, e o senhor me vem com harpa?
- É tudo de corda, faz diferença?
- Faz.
- É que o barulho de guitarra é meio infernal. Aqui somos celestiais! Celestiais, Flavio!
- Entendi.
- Ó, o Diabo ta aí no portão te esperando.
- Mas quero ir pro Inferno não!
- Por quê? Só porque todas as pessoas de índole duvidosa estão por lá?
- Não.
- Só porque você não lida com a idéia de ameaça diária de violência?
- Não. Eu estou acostumado com pessoas de índole duvidosa e com ameaças diárias de violência. Sou do Rio de Janeiro.
- Então porquê você não quer nem conhecer o Inferno?
- Porque não agüento com lugar quente. E também tem outra justificativa.
- Qual?
Cansei de ser underground. Quando começo a tocar harpa?

Já É?

Memórias Infantis de Um Homem Infantil, 1

Pede dinheiro pra vovó agora, malandrão!

Uma coisa que sempre achei engraçado (e ainda acho) é a mania dos familiares mais velhos – desde pais, avós, tios e até primos! – de se sentirem na obrigação de dar dinheiro para os mais novos, meio que sem motivo. Uma das lembranças mais surreais que tenho é da época em que meu avô, coitado, que estava muito doente e gastando uma fortuna em remédio, quando eu ia visitá-lo, ele me dava dinheiro. Dizia ele que era para o ônibus, mas só se fosse para um ônibus para a Região dos Lagos. R$ 20! Olha que nessa época eu já trabalhava, devia ter meus 18, 19 anos. Claro, não ganhava – e nem ganho, ainda – uma fortuna, mas já tinha meu próprio dinheirinho para ir visitá-lo. E quando ele esquecia, a minha finada avó sempre falava, “Bruno, o dinheiro do ônibus para o Flavinho!”, e lá ia ele me dar o dinheiro. Se eu os visitasse pelo menos umas três vezes por semana, desde que nasci até meus 20 anos, descontando os dois anos que morei por lá, eu seria o primeiro da minha turma de amigos que tinha se aposentado ao terminar o ensino médio e antes de terminar a faculdade. Maldita hora para não ser tão ligado à família!

NadaCrônicas, 31

Ou ainda A Despedida

- Tenho que ir.
- O quê? Já?
- Uhum.
- Mas ainda está cedo!
Desculpa, mas não posso ficar mais.
- Mas é só isso?
- Como assim?
- Espero você durante o mês todo, você chega e já vai embora? Não tem nem dois dias que você chegou.
- Desculpa.
- Desculpa? É só isso que você me fala?
Uhum. Sempre te disse que eu não era essas coisas todas. Não tenho culpa se você é tão teimoso.
- Eu sou teimoso porque você sabe que não posso viver sem você! Por mais que eu queira não depender de você, você sabe que é importante para mim. E sempre é assim: você vem, fica um, dois dias, no máximo, e vai embora mais rápido do que pobre atrasado para o trabalho atrás do ônibus.
- Flavio…
- Hum.
- Você É um pobre que corre atrás de ônibus.
- Eu sei, estou te falando por experiência própria.
- Sei… Desculpa, está na minha hora. Acho que fiquei até tempo demais esse mês.
- Então é assim…
- Sim, é assim. Infelizmente.
Você volta?
- Você sabe que volto no início do mês que vem. Tchau.
- Tchau, Salário.

Agora Fique Com O Melhor da Propaganda!

É isso aí, garotada, agora o melhor da nossa propaganda de nada.

Vocês sabem que vida de escritor no Brasil não é fácil. Por isso eu trabalho com outras coisas que dão tanto dinheiro quanto escrever para ver se junto um dinheiro para ser considerado miserável, segundo os padrões altíssimos da ONU (Us$ 1/Dia? Aff, Isso é Uma Fortuna…). E essa é a melhor oportunidade de vocês, meus 13 amigos leitores, me ajudarem nessa empreitada. Então, dia 27 de março, apareçam lá em Marechal Hermes e ajudem esse pobre escritor, que nas horas vagas (ou nem tão vagas assim) é um músico. Até porque tenho que angariar fundos para minha ONG, Associação dos Negros Pobres, alimentar mais sete irmãos e 18 filhos mulatos e ilegítimos – fazer o que se são as brancas que mais gostam de se lambuzar com “O” chocolate, hum?
Os ingressos podem ser comprados com as bandas Tópico 3 e Espantalho Torvo, pessoalmente, por email, por telegrama, código morse ou sinal de fumaça, e estarão à venda em breve na Ronin Tattoo Shop (Rua São Francisco Xavier, 465-c, esquina com a Rua Dona Zulmira, no Maracanã).
Então é isso, gente. Em breve voltaremos com a programação normal. Plim-plim!

NadaCrônicas, 10


A Agonia de Um Assalariado

Dinheiro é como papel higiênico: Quando você mais precisa, você lembra que ele acabou depois de sua última cagada.

Dia 5: Dia de uma fugaz felicidade e de uma eterna agonia. Dia do pagamento. Se dinheiro na mão do Paulinho da Viola é vendaval, na minha é uma prova de 100 metros rasos com Usain Bolt. O salário dura exatamente 9s 69c.
Dia 7: Alguns cheques já foram descontados, e outros ainda vão dar o ar da sua graça. Dia de mercado com a patroa. Detalhe: já repararam que, por mais que o salário mínimo aumente, o dinheiro nunca rende? Isso se chama Arrocho salarial. Aprendi com um dos meus filhos. Ele tem 7 anos. Não sabe amarrar os cadarços do sapato, mas é bom de matemática, o garoto.
Dia 10: Dia de pagar o aluguel, a mensalidade da escola das crianças, entre outras coisas. Acho que até o dia 18 terei só r$10 para passar o resto do mês.
Dia 12: Dia D dos cheques, parte dois. Inteligente é o cara que diz que continuações não são nada boas, nem no cinema, nem no bolso.
Dia 15: Dia de pagar o crediário. Isso que dá mobiliar a casa comprando as coisas em 597 vezes! Acho que meus filhos ainda pagarão algumas parcelas do sofá, que já está todo rasgado. Patroa de TPM, risco Defcon nível 4, numa escala entre 1 e 3. Perigo!
Dia 18: Ser pai de família é como controlar as finanças de um país falido. A gente escolhe o que paga e o que fica devendo, não porque queremos, mas é porque o orçamento é deficitário. Quero saber quando vão aparecer os argentinos batendo panela em frente a minha casa, pedindo minha cabeça por essa situação calamitosa. Mas dessa vez, fiz algo diferente, uma espécie de loteria. Coloquei todas as contas restantes num saco plástico e sorteei. Esse mês eu pago a conta de luz, mas a companhia telefônica não teve a mesma sorte. Fica para próxima! P.s.: Eu estava certo. Tenho só mais r$ 10 na carteira.
Dia 22:
Se esses r$ 10 que eu tinha estivessem na mão da minha mãe, já teriam virado r$ 100, ou uma outra compra do mês, sei lá. Mas como a patroa insiste em fazer um programa diferente com as crianças no domingo, os r$ 10 não me pertencem mais. Sorte que ainda consigo dar uns calotes no ônibus. Não perdi minha malandragem suburbana, mas dinheiro que é bom, deixa pro dia 5.
Dia 27: Já pensei em assaltar um banco. Já pensei em assaltar uma padaria. Já pensei em vender um rim, ou até mesmo a jararaca da minha sogra. Mas como sou muito medroso e meu rim – e principalmente minha sogra! – não é lá essas coisas todas, fui pedir um dinheiro emprestado a quem eu nunca vou pagar e que eu sei que nunca vai me cobrar: mamãe.
Dia 31:
Mês longo. Todos os meses poderiam ter dez dias. Malditos astrônomos, sejam eles cristãos, muçulmanos, maias, astecas, bistecas, discotecas ou bibliotecas, sempre atrasando nosso lado.
Dia 4: Expectativa! Amanhã é o dia. Ontem a noite foi boa com a patroa, mas que não me venha mais um filho! Vasectomia, lá vou eu!
Dia 5: Começa tudo de novo. tudo que eu queria nessa vida era engravidar do Romário, mas acho que não faço muito o tipo dele.

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