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Sobre Relacionamentos Abertos

Longe de mim ser possessivo, ainda mais se tratando de pessoas. Ninguém me pertence, assim como não sou propriedade de ninguém. Mas tem horas que exageram. E uma coisa que eu nunca entendi direito é esse fenômeno dos relacionamentos abertos, ou seja, tem um companheiro que te dá carinho, atenção, e na rua tem outras pessoas que te dão outras coisas que a pessoa que está em casa não dá porque está com enxaqueca. E o pior é que essa pessoa que te dá carinho, atenção, mas dorme de calça jeans, sabe que seu companheiro está comendo fora de casa, se é que vocês me entendem, e nem liga. Juro para vocês, eu tentei ver a praticidade disso tudo, mas vai saber, sou um homem das cavernas.
Estava um dia pensando com meus amigos imaginários, que aparecem por aqui apenas quando tomo meus remédios de tarja preta, a respeito do relacionamento aberto. Foi uma conversa interessante, franca, porém breve (eles sempre se sentem ofendidos com minhas ideias um tanto radicais) como todas as conversas que eu tenho com eles. Foi mais ou menos assim:
- Mas para quê me serve um relacionamento aberto? Se eu quero me relacionar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, por quê ficar preso num relacionamento, mesmo que ele seja aberto?
- Ué, é que o relacionamento aberto une o útil ao agradável, porque você faz sexo com meio mundo sem culpa, mas na hora em que bater a solidão, sempre tem alguém que pode te oferecer carinho, sabe?
- Mas se você é solteiro, você pode sair pegando meio mundo sem culpa.
- E nas horas em que bater a solidão?
- Arruma um gato, um cachorro, um hamster pra fazer companhia, sei lá.
E eles foram embora, já que se sentiram ofendidos com isso.
E antes que os “muderninhos†venham me falar que podemos amar as pessoas de formas diferentes, digo-lhes para não distorcer isso. Você ama sua mãe, seus amigos e sua mulher de formas diferentes, mas mesmo assim os ama e não é nenhuma bagunça. Penso que, se você se dispõe a ter um relacionamento monogâmico com uma pessoa, é porque você está disposto a encarar essa. É aquela pessoa e ponto, fidelidade enquanto durar. Agora, se você está com o “espírito Zé Mayer pegador de Helenas das novelas das 8â€, nem tente embarcar num relacionamento, porque mais cedo ou mais tarde, por mais que esse relacionamento seja aberto, vai rolar ciúme, e vai terminar mal. Então para o bem da Humanidade, fique solteiro. Simples, ou um ou outro, até porque quem pretende ter tudo, acaba sem nada, nem com um hamster para fazer companhia. Mas, sabe como que é, sou homem das cavernas, possessivo, sou antiquado… Ainda bem. Ainda bem!

Morando em Atlântida Você Sabe Como É…

É notório que o Rio de Janeiro para até com um chuvisco de três minutos, mas não lembro de uma chuva ter causado tanto estrago. Nem minha mãe se lembra, e olha que ela tem mais de 30 anos de Rio. Quando digo que estou me sentindo o Aquaman não é brincadeira. O Rio ainda está debaixo d’água. A chuva veio como quem não quer nada no início da tarde da segunda-feira e só agora, fim da manhã e início da tarde de quarta-feira que a chuva parou por um período maior que dez minutos.
Quanto a essa história, todos já conhecem: um rastro de destruição, engarrafamentos, os transportes públicos (que já não são essa beleza toda em dias normais) funcionando precariamente, vidas perdidas, e por aí vai. A primeira coisa que pensamos é colocar a culpa no poder público, até porque é sabido, por exemplo, desde do tempo que se amarrava cachorro com linguiça, que a Praça da Bandeira vira um autêntico piscinão nos dias de chuva um pouco mais forte. “Culpa do governo!â€, bradamos todos. Sim, ele tem uma carga enorme de responsabilidade, já que boa parte das medidas ou não saem do papel, ou são eleitoreiras, ou paliativas. O poder público tem que zelar para o bem comum, mas este é usado a exaustão em prol de projetos particulares de nossos políticos e afilhados políticos. Mas temos culpa, e muita. Estamos muito longe de sermos as vítimas dessa história.
A começar, pela nossa educação. Não a educação de cadernos, livros, escola, diploma – é muito fácil colocar a culpa no professor, não é? -, mas a que nós damos e recebemos em casa. Lugar de lixo é no lixo. Ponto. Se você tem o mínimo de senso de higiene, você não sai jogando lixo na sala de sua casa, por exemplo. A cidade (o país, o mundo!) é uma extensão da nossa casa, temos que prezar pela organização do espaço público como prezamos pela organização de nossas casas. Não ache que aquele papelzinho de bala não faz mal algum, porque se ele não faz mal, coisas um pouco maiores, e coisas um pouco maiores que essas um pouco maiores que papel de bala também não vão fazer estrago se jogadas na rua. Mas vemos que não é assim.
Nossa consciência política também conta. Vamos tentar votar em quem tem idéias boas E possíveis. Megalomaníacos fizeram as besteiras deles para colocar seus nomes na posteridade, superfaturaram obras, e estamos aqui, a Deus-dará, debaixo d’água, chorando pelo prejuízo material, pessoal e/ou sentimental. Votar em quem é mais bonitinho, ou em quem rouba menos nos leva a isso. Os políticos corruptos são o nosso espelho. Eles mandam e desmandam em causa própria porque somos covardes. Todos falam que precisamos mudar o Brasil, que “este país está uma vergonhaâ€, e quantos estão nas ruas batendo panelas contra os Maluf, os Garotinho, os Sarney da vida? Quantos de nós se importam (e até se engajam, vejam só!) com quem vota no BBB e só decidem votar em fulano e sicrano nas eleições na última hora, mal sabendo o nome do sujeito? É como diz minha amada mãe: “aos porcos jogamos lavagem”. Sim, somos porcos, de dar nojo. Reféns de demagogos porque deixamos, nos acomodamos a ter pouco – Isso quando temos! – e até fazemos graça da nossa desgraça. Mudar o nosso destino dá trabalho, não é?
E posso prever, mesmo sem ter poderes mágicos ou paranormais, toda a comoção e trabalho que o sofrimento alheio vai nos proporcionar, faremos campanhas de doação de roupas, alimentos, remédios (o que não é errado, muito pelo contrário, é o mínimo que podemos fazer), mas daqui a duas semanas ou menos, quando tudo voltar ao normal, quando a água baixar, vamos esquecer de tudo, desde a comoção, passando pela educação, até as cobranças ao poder público. Isso até a tragédia bater na nossa porta de novo.

NadaCrônicas, 25

tamofu1

Ou ainda Confissões de Um Hipocondríaco

Tudo começou com um remédio para dor de cabeça. Sabe aquele remédio que quase não faz diferença, como o Fluminense? Pois é, tomei o de doses infantis dele. Mas o organismo foi criando resistência. A dor de cabeça foi aumentando, e as doses do remédio infantil também. Quando o remédio infantil não adiantava mais, comecei a tomar coisas mais fortes. E nesse meio caminho, comecei a tomar todo tipo de remédio: se falavam que tinha um surto de gripe, ia na farmácia e comprava aquele remedinho de vitamina A que dissolve na água. Efeverscente, não é isso? Pois é. Se meus amigos falavam que estavam indo mal na vida sexual, comprava a tal da pílula azul. Comecei cortando a pílula, pra não ir com muita sede ao pote, mas dependendo da qualidade da presa do dia, tomava umas 3. Com uísque, pra descontrair. Sou tímido. Se todos reclamavam de dor no joelho, eu comprava aquele remédio de cartilagem de tubarão (ou de golfinho, de baleia ou da orelha do Hollyfield que o Mike Tyson arrancou, não sei exatamente) que um apresentador perneta anuncia. Deve ser bom, porque se uma pessoa que tem só uma perna diz que toma, deve ser muito bom pro joelho, ou para a cartilagem da perna de pau. E assim eu fui tomando remédio para tudo. Mas o céu é o limite para um hipocondríaco, literalmente.

Não satisfeito, comecei a misturar remédios. Anticoncepcional com remédio contra calvície, remédio para aumentar a pressão sanguínea com remédio para diminuir a pressão sanguínea - para ver se minha pressão ficava na média - e outras misturas que nem uma criança de cinco anos recomenda. Em duas situações eu me dei muito mal: uma vez misturei remédio para dar mais disposição com remédio para dormir. Só sei que fiquei com metade do corpo ligadona e a outra bem relaxada. A outra vez foi quando misturei remédio para dormir com laxante. Os dois remédios surtiram efeito. O problema é que precisei comprar um colchão novo. O meu colchão ficou uma merda a partir daquele dia.

Mas eu sempre tomei remédio sem recomendação médica porque confio na indústria farmacêutica que faz aqueles comerciais com gente feliz, de olhos azuis, crianças saudáveis, falando que o remédio é uma maravilha e no final ainda dizem que persistindo os sintomas, recomenda-se procurar um médico. Médico não serve para nada mesmo. Xarope sim serve para tudo, desde dor na garganta até atropelamento.

 

 

 

NadaCrônicas, 24

Ou Ainda O Insone

Está difícil dormir. E não são as dívidas ou as preocupações do dia-a-dia que não me deixam dormir. Não é nada, só não consigo dormir, pelo menos na hora que eu tinha que estar dormindo. Ainda bem que não trabalho com máquinas pesadas. Mas isso pouco importa. Tenho sono. Muito. Mas não prego os olhos. Já tomei chá de erva cidreira, de erva proibida, até tomei o chá das cinco. Tudo que consegui foi uns baratos, ter algumas alucinações, como ver elefantes brancos ou a hora do rush sem engarrafamento na Avenida Brasil. Tentei usar da psicologia reversa, pensando que não queria dormir para poder dormir, mas ainda estou acordado. Mais acordado do que de costume. Fiquei até com vontade de fazer uma faxina em casa às 3 da manhã. Mas é vontade que dá e passa com um banho frio.
Depois contei carneiros. Exatos 1.532.486. Contei políticos honestos. Um, ou dois, não me lembro agora. Contei até botafoguenses. Exatos 19. E nada de dormir. E comecei a fazer listas no estilo “cinco maisâ€. Cinco melhores solos de guitarra, cinco melhores jogadores de futebol que vi jogar, cinco maiores mentiras, e nada. Desisti. Nunca fui bom com listas, nem com as de supermercado. Sempre acabo esquecendo de alguma coisa.
Tentei até esvaziar a cabeça. Tentei, e não consegui. Mas foi tão cansativo tentar esvaziar a cabeça que acabei tirando uma soneca.

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