Posts Tagged ‘cotidiano’

Poesia Numa Hora Dessas? (28)

Ou Ainda Meu Dinheiro E Eu, O P(r)o(bl)ema

Foi-se cedo
Não me pediu café
Deu seu recado de pé mesmo,
só para dar mais drama ao enredo.
Não fico mais um segundo!
- disse ele -
Mas o que será de meu mundo
sem a ajuda dele?
E ele, com seu ar filosofal
E profético
(mas beirando ao patético)
tratou de diminuir tamanho mal:
“Vou mas já volto
E de repente até me empolgo
E fico mais duas horas da próxima vez.â€
Sentiste, leitor, o mal que ele me fez?
E todo dia 5
Sinto-me como uma pessoa sem cinto:
Sempre com as calças na mão.

NadaCrônicas, 34

Ou Ainda Óculos

- Olha, pode parecer loucura, e acho que é, eu tava lá do outro lado te olhando e vi que você também me dava umas olhadas, e resolvi vir aqui falar com você. Acho que você é a mulher da minha vida. N-não, deixa eu falar, por favor, sou tímido e a pior coisa que se pode fazer a um tímido é interrompê-lo quando ele está falando, frustra legal. Olha, eu sei que você saiu pra se divertir e a última coisa que você quer é ser importunada por um sujeito chato como eu. Juro que eu vou até embora depois de falar com você, se você quiser que eu vá, claro. M-mas olha – ai, to até suando frio! – eu vi que você estava sozinha e tomei coragem de vir aqui falar contigo. Sabe, tem que ser muito corajoso pra tentar alguma coisa com uma mulher tão linda! Eu só posso estar maluco! Mas o-olha, eu só queria uma companhia legal essa noite, não precisa ter beijo na boca, de ir para os “finalmente”, podemos só conversar, sei lá, eu até tirei os óculos para parecer mais atraente, mas não preciso nem de óculos para reparar nesse seu lindo – peraí, deixa eu colocar os óculos de novo! – reparar no seu lindo… Bigode?
- É, rapaz, acho que você tava passando cantada na pessoa errada…
- D-desculpa! É que eu to nervoso, tirei os óculos para …
- Eu sei, eu sei, é a morena aqui atrás, né?
- É que – caraca! – você tem cabelo grande também… Mas por que você não falou nada? Não vai me dizer que estava gostando?
- Até estava, mas eu gosto de mulher também.
- Desculpa! Deixe-me passar para falar com ela… Oi, tudo bem? Olha, pode parecer loucura…

Cenas (In)Comuns, 2

- Para aí, cidadão.
- Quem, eu?
- É.
- O que houve, seu guarda?
- Deixa eu ver a documentação do carro.
- Ih, seu guarda, dá não.
- Por quê?
- Esse carro não é meu, é emprestado, e nem tenho carteira ainda.
- Que bonito, hein! Sai do carro! E essa lata de cerveja vazia dentro do seu carro?
- É, seu guarda, eu admito, eu tava bebendo enquanto bebia.
- E pelo menos a uns 30 km/h acima do permitido. Você gosta de confusão, hein garoto!
- Mas seu guarda, a gente pode resolver isso.
- Como assim, rapaz?
- Aceita um dinheiro para a cervejinha?
- Você está querendo me subornar, rapaz?
- Sabe, “subornar†é uma palavra muito forte. Diria que é uma “ajuda de custo†pelo seu trabalho bem feito.
- Você pensa que todos policiais são corruptos?
- Não é questão de corrupção, seu guarda, é fazer uma vista grossa. Me libera que prometo pro senhor que nunca mais sou pego numa blitz, não atropelo velhinha, nem xingo no trânsito.
- Rapaz, você ta fazendo um juízo errado dos policiais…
- Que absurdo, seu guarda! Você não vai aceitar suborno? Acho que isso vai custar seu emprego! No Brasil é quase como violar a Constituição! Chama seu superior que eu tenho uma queixa para levar a ele! Absurdo, não aceitar suborno, ainda mais no Brasil…

Curso Básico de Educação, Segundo um Ogro - Capítulo 1

Nada vem me frustrando tanto quanto os dias que eu tento tirar um dia para mim. Como vocês já devem ter percebido, minha vida depois de entrar no magistério do estado do Rio de Janeiro virou uma bagunça, e olha que minha vida antes de eu entrar para o estado já não era tão organizada. Mas o lado positivo é que estou trabalhando no que gosto. Não posso reclamar muito. E nem estou reclamando do trabalho de professor, que confesso, é cansativo. Mas estou chateado justamente com os dias livres.
Não, eu não virei um workaholic. Muito pelo contrário. Eu tento trabalhar bem – e rápido! - para poder descansar o máximo de tempo que posso. E assim foi essa semana. Por uma série de fatores e coincidências, consegui um dia inteirinho livre. Livre mesmo. Sem nada para fazer. E pretendia aproveitar a oportunidade para dormir feito um porco obeso (mesmo sem saber como um porco obeso dorme). Pois é, PRETENDIA. Sabe quando as coisas tem tudo para dar certo e surgem coisas que tentam fazer que tudo vá por água abaixo? Foi exatamente isso que quase aconteceu. Quase. Quase porque tive que usar da minha ignorância para alcançar meus meios. E assim o fiz. Fingi que não escutei o que falaram comigo, desliguei telefone na cara dos outros, até gritei uns palavrões para pessoas que há muito tempo mereciam um coice daqueles. Sinto-me leve como uma pena, uma pena de 70 quilos. Agora sim sou um homem descansado. Tudo que um pouco de uma educação digna de um ogro não resolva. Agora me dêem licença, acho que vou dormir mais um pouquinho, porque amanhã o dia vai ser movimentado, e o ogro vai ter que voltar a ser um príncipe. Uma pena.

NadaCrônicas, 29

Ou Ainda A Conquista

Parecia que eram só os dois. As pessoas que estavam no ônibus, as alegrias e tristezas alheias não existiam. O mundo era só deles dois naquele momento. Ele falou algo para ela, ela o olhou e riu. Provavelmente foi uma piada sem graça que ele contou, mas que era tão sem graça que ela abriu um sorriso. Esse é dos meus, deve ter aprendido a arte da conquista na Escola dos Românticos Politicamente Incorretos. Ele não era bonito, e ela também não era essas coisas todas, mas parecia que isso realmente não importava para nenhum dos dois. Ele falou algo no ouvido dela, e com aquela cara de quem não está jogando para perder. Ela olha nos olhos dele com uma cara de eterna indecisão. E de repente o beijo. Garoto bom, esse. Ajudou ela a dar adeus a indecisão, ou piorou a cabeça da coitada de vez. É um beijo longo. Contei exatos 1 minuto e 32 segundos. Ele só tem que tomar cuidado com essa mão direita, doidinha para apalpar o peito da sua conquista, mas nem o tapinha que ela deu na mão dele de leve interrompeu o beijo. Interrompeu só a apalpada. Deu vontade de falar para ele que, se ele continuasse beijando ela assim, em menos de 48 horas ele podia apalpar os peitos e outras coisas mais legais. E com tapinhas incluídos, mas só se ela pedisse.

NadaCrônicas, 27

Ou Ainda A Verdade Dói

A verdade, meus caros amigos, a verdade. Sinto lhes informar, mas a verdade, na verdade, não existe. É sério. Se ela existisse, ninguém a suportaria. Para isso existe a mentira. Ou você imagina um diálogo como este?

- Amor?
- Hum.
- Você me ama?
- Por quê?
- Ai, sei lá, você me ama?
- Depende.
- Como assim?
- Olha, tem horas que te amo na cozinha, tem horas que te amo calada, tem horas que te amo na cama, fazendo sexo, apesar da minha ejaculação precoce, ou dormindo, mesmo… E claro, tem horas que eu me pergunto porque que eu te conheci. Preciso parar de beber. Merda. Mas não se preocupe, só me arrependo algumas vezes, quando você insiste para a gente tentar terapia de casal, que, na minha humilde opinião, acho coisa de viado, ou fica me dando indireta para arrumar um emprego praquele seu sobrinho que não quer nada da vida, ou ainda aquela maldita ideia de passar o Ano Novo com a jararaca da sua mãe e a cobrinha que é a sua irmã, velha encalhada, ou quando me faz perguntas idiotas, como “amor, estou gorda?†ou “amor, você me ama?â€, só nessas vezes que me dá vontade de mandar para um lugar aonde não bata Sol, como o Pólo Norte no inverno. Fora isso, eu te amo.
- Cruzes!
- Sério.
- Precisa ser tão grosso?
- Depende.
- Como assim?
- Você mesma me disse que eu preciso sempre te falar a verdade.
- Você já escutou falar de “mentirinhas sociais�
- Sim.
- Então por quê não as usa de vez em quando, seu grosso?
- É porque…sabe como é, você me conhece, eu não sei mentir direito. Baleia.
- Careca.
- Te amo.

Claro, um diálogo como esse terminaria com alguns palavrões, uma facada, e uma bela manchete de jornal naqueles jornais de gosto duvidoso (jornalistas, piores que advogados…) como “Baleia não aguenta a verdade e mata marido carecaâ€, mas eu resolvi dar um desfecho mais, er, humano. Então meu caro, antes de falar da verdade, aprenda a mentir um pouco. Tem gente que mente e ganha milhões, e a gente nessa de falar a verdade, somente a verdade, vai vivendo. Minto. Sobrevivendo.

NadaCrônicas, 24

Ou Ainda O Insone

Está difícil dormir. E não são as dívidas ou as preocupações do dia-a-dia que não me deixam dormir. Não é nada, só não consigo dormir, pelo menos na hora que eu tinha que estar dormindo. Ainda bem que não trabalho com máquinas pesadas. Mas isso pouco importa. Tenho sono. Muito. Mas não prego os olhos. Já tomei chá de erva cidreira, de erva proibida, até tomei o chá das cinco. Tudo que consegui foi uns baratos, ter algumas alucinações, como ver elefantes brancos ou a hora do rush sem engarrafamento na Avenida Brasil. Tentei usar da psicologia reversa, pensando que não queria dormir para poder dormir, mas ainda estou acordado. Mais acordado do que de costume. Fiquei até com vontade de fazer uma faxina em casa às 3 da manhã. Mas é vontade que dá e passa com um banho frio.
Depois contei carneiros. Exatos 1.532.486. Contei políticos honestos. Um, ou dois, não me lembro agora. Contei até botafoguenses. Exatos 19. E nada de dormir. E comecei a fazer listas no estilo “cinco maisâ€. Cinco melhores solos de guitarra, cinco melhores jogadores de futebol que vi jogar, cinco maiores mentiras, e nada. Desisti. Nunca fui bom com listas, nem com as de supermercado. Sempre acabo esquecendo de alguma coisa.
Tentei até esvaziar a cabeça. Tentei, e não consegui. Mas foi tão cansativo tentar esvaziar a cabeça que acabei tirando uma soneca.

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