Posts Tagged ‘desespero’

NadaCrônicas, 39

Ou Ainda Tá Caído!

-    Rapaz, eu não sei o que aconteceu.
-    O quê que houve?
-    Poxa, sei lá, ele ta meio caído ultimamente, eu to preocupado com isso.
-    Como assim, caído, cara? Você não tem idade para isso não!
-    E por um acaso tem idade para isso acontecer?
-    Ué, é até normal ele perder um pouco da vitalidade, do brilho lá pros 40, 50 anos.
-    Mesmo assim, eu o queria sempre em pé.
-    Ta maluco, rapaz? O que as pessoas vão pensar de você se virem ele sempre em pé?
-    Vão pensar “esse cara é sagaz!”, mas com ele caído eu sinto o pessoal até rindo de mim. Estou me sentindo impotente, cara! Poxa, justo eu, que trato dele com tanto carinho, não deixo ninguém tocar nele…
-    Você é um maluco, isso sim! Se dependesse de mim, quem quisesse colocar a mão eu deixaria na hora! Mas que seja, isso não me importa. Você tem passado alguma coisa nele?
-     Tenho passado um shampoo, mas o creme acabou.
-    Que creme?
-    Porra, cara, que creme! Creme pra cabelo! Creme de cabelo para o cabelo, ué! Preciso desse Black Power impecável, as mulheres adoram meus cachos.
-    Cabelo?
-    É! Por quê? Você estava pensando em quê?
-    Eu? Deixa pra lá.

NadaCrônicas, 37

Aposto que esse não é o padrão altíssimo de mulher com beleza e classe que o Seu Pinto está acostumado…

Ou Ainda De Papo Com Seu Pinto

- E essa daí?
- Não.
- Por quê?
- Porra, tem bigode, cara, cruzes! Bigode!
O que tem um pouco de pêlo? É charmoso.
- Pêlo na cara de mulher? E não é um fio, é um bigode, cara! Bigode só é charmoso para um ator pornô mexicano dos anos 1980.
- Mas a bundinha…
- A bundinha até que não é de se jogar fora, mas o bigode acaba com tudo.
- Tá bom, tá bom, e essa agora?
- Bonita. Até que é um doce.
- E…
- E sem sal.
Sem sal? Você só pode tá brincando. Rapaz, coloca um chantilly, um chocolate que tá tudo certo.
- Cara, chantilly, chocolate, é tudo doce. Eu te disse que ela é um doce, mas é sem sal.
- Sal, chocolate, tudo isso aí é comestível, e se come do mesmo jeito, se é que você me entende. E essa que ta passando agora? Cabelos cacheados…
- … E cheio de creme. Não gosto de mulher que enche o cabelo de creme.
- Você é complicado, hein! E essa agora que ta vindo aí, tem cabelo lisinho, deve ter ascendência indígena, oriental, ou passou a prancha no cabelo, que seja. Mas o cabelo é liso!
- Quem te disse que gosto de cabelo liso?
- Ué, você não gosta de cabelo cacheado, então…
- Eu não disse que não gostava de cabelo cacheado. E cabelo liso escorrega demais, de repente você quer dar aquela puxadinha de cabelo e o cabelo foge da mão, saca? A parada é cabelo misto, seja lá o que isso significa.
- Vem cá, você é cabelereiro agora? Você ta meio estranho, isso sim. Se você continuar assim vou pensar que você é chegado num careca, e carecas não fazem meu tipo.
Não, cara, é preferência. Você não vai num cinema assistir qualquer filme, por exemplo. Vai assistir um que faz seu estilo. Mulher é a mesma coisa, com a diferença que ir ao cinema é muito mais barato.
- Sei. E aquela ruiva do lado da de vestido preto?
- É um escocês de kilt e um padre, cara.
- Ah. Desculpa, é que às vezes me confundo.

Morando em Atlântida Você Sabe Como É…

É notório que o Rio de Janeiro para até com um chuvisco de três minutos, mas não lembro de uma chuva ter causado tanto estrago. Nem minha mãe se lembra, e olha que ela tem mais de 30 anos de Rio. Quando digo que estou me sentindo o Aquaman não é brincadeira. O Rio ainda está debaixo d’água. A chuva veio como quem não quer nada no início da tarde da segunda-feira e só agora, fim da manhã e início da tarde de quarta-feira que a chuva parou por um período maior que dez minutos.
Quanto a essa história, todos já conhecem: um rastro de destruição, engarrafamentos, os transportes públicos (que já não são essa beleza toda em dias normais) funcionando precariamente, vidas perdidas, e por aí vai. A primeira coisa que pensamos é colocar a culpa no poder público, até porque é sabido, por exemplo, desde do tempo que se amarrava cachorro com linguiça, que a Praça da Bandeira vira um autêntico piscinão nos dias de chuva um pouco mais forte. “Culpa do governo!”, bradamos todos. Sim, ele tem uma carga enorme de responsabilidade, já que boa parte das medidas ou não saem do papel, ou são eleitoreiras, ou paliativas. O poder público tem que zelar para o bem comum, mas este é usado a exaustão em prol de projetos particulares de nossos políticos e afilhados políticos. Mas temos culpa, e muita. Estamos muito longe de sermos as vítimas dessa história.
A começar, pela nossa educação. Não a educação de cadernos, livros, escola, diploma – é muito fácil colocar a culpa no professor, não é? -, mas a que nós damos e recebemos em casa. Lugar de lixo é no lixo. Ponto. Se você tem o mínimo de senso de higiene, você não sai jogando lixo na sala de sua casa, por exemplo. A cidade (o país, o mundo!) é uma extensão da nossa casa, temos que prezar pela organização do espaço público como prezamos pela organização de nossas casas. Não ache que aquele papelzinho de bala não faz mal algum, porque se ele não faz mal, coisas um pouco maiores, e coisas um pouco maiores que essas um pouco maiores que papel de bala também não vão fazer estrago se jogadas na rua. Mas vemos que não é assim.
Nossa consciência política também conta. Vamos tentar votar em quem tem idéias boas E possíveis. Megalomaníacos fizeram as besteiras deles para colocar seus nomes na posteridade, superfaturaram obras, e estamos aqui, a Deus-dará, debaixo d’água, chorando pelo prejuízo material, pessoal e/ou sentimental. Votar em quem é mais bonitinho, ou em quem rouba menos nos leva a isso. Os políticos corruptos são o nosso espelho. Eles mandam e desmandam em causa própria porque somos covardes. Todos falam que precisamos mudar o Brasil, que “este país está uma vergonha”, e quantos estão nas ruas batendo panelas contra os Maluf, os Garotinho, os Sarney da vida? Quantos de nós se importam (e até se engajam, vejam só!) com quem vota no BBB e só decidem votar em fulano e sicrano nas eleições na última hora, mal sabendo o nome do sujeito? É como diz minha amada mãe: “aos porcos jogamos lavagem”. Sim, somos porcos, de dar nojo. Reféns de demagogos porque deixamos, nos acomodamos a ter pouco – Isso quando temos! – e até fazemos graça da nossa desgraça. Mudar o nosso destino dá trabalho, não é?
E posso prever, mesmo sem ter poderes mágicos ou paranormais, toda a comoção e trabalho que o sofrimento alheio vai nos proporcionar, faremos campanhas de doação de roupas, alimentos, remédios (o que não é errado, muito pelo contrário, é o mínimo que podemos fazer), mas daqui a duas semanas ou menos, quando tudo voltar ao normal, quando a água baixar, vamos esquecer de tudo, desde a comoção, passando pela educação, até as cobranças ao poder público. Isso até a tragédia bater na nossa porta de novo.

Poesia Numa Hora Dessas? (28)

Ou Ainda Meu Dinheiro E Eu, O P(r)o(bl)ema

Foi-se cedo
Não me pediu café
Deu seu recado de pé mesmo,
só para dar mais drama ao enredo.
Não fico mais um segundo!
- disse ele -
Mas o que será de meu mundo
sem a ajuda dele?
E ele, com seu ar filosofal
E profético
(mas beirando ao patético)
tratou de diminuir tamanho mal:
“Vou mas já volto
E de repente até me empolgo
E fico mais duas horas da próxima vez.”
Sentiste, leitor, o mal que ele me fez?
E todo dia 5
Sinto-me como uma pessoa sem cinto:
Sempre com as calças na mão.

O Tempo, Pornografia Russa, Mega Sena e Outras Coisas Menos Filosóficas

O tempo é mais cruel que o Romário em seus áureos tempos, nos campos e nas boates. Quando o tempo podia passar voando, ele se arrasta. Quando podia passar arrastado, voa. Sempre foi assim. Estou olhando o relógio, encarando-o como se ele fosse se sentir intimidado e assim marcaria logo a saída do trabalho. Tudo que posso fazer é entoar o meu mais novo mantra: “Só até as cinco! Só até as cinco! Faltam duas horas! E nada de site pornô! Pornografia Russa é a melhor!”. O mantra nunca funcionou.
Aposto que se eu estivesse num momento de orgasmos múltiplos com a mulher mais desejada do mundo, o tempo ia passar rapidinho. Em compensação, se eu entro numa fila quilométrica para pagar as malditas das minhas contas, o tempo demora a passar, a menos que eu esteja atrasado para alguma coisa. E se eu tentar faturar a mulher mais desejada do mundo numa fila de uma lotérica, sem ter lugar nenhum para ir? O tempo passaria mais rápido ou não? Impossivel dizer. Impossivel mesmo. A mulher mais desejada do mundo nunca estaria numa fila para fazer sua fézinha na mega sena. Tudo o que me resta é entoar meu mantra meia-boca: “Só até as cinco! Só até as cinco! Faltam duas horas! E nada de site pornô! Pornografia Russa é a melhor!”

Filosofando…(4)


Só Existe luz no fim do túnel para quem tem uma lanterna.
Pense Nisso!!!

Inspiração, Santa Inspiração!!!

A falta de inspiração é uma companheira constante na vida de um escritor. Não tem jeito. Um dia a dona Inspiração fala que não vai poder comparecer porque está com dor-de-cabeça ou porque está presa num engarrafamento-monstro. Então, resta ao escritor esperar por uma benção divina. Se ele não acredita nessas coisas, é nessas horas que ele passa a acreditar. Quer ver um escritor ateu se converter em dois segundos? Das duas, uma: ou ponha fogo na casa dele ou torça pra ele não ter inspiração.
É dura a rotina quando não se está inspirado. A gente fica revirando nossos pensamentos, tentando encontrar algo que preste. Revira, revira, e re-revira, e revira de novo. Não acha. Tudo bem. Já que cabeça vazia é oficina do Diabo, quem sabe ele não dá uma idéia dos infernos? Diante de um quadro tão desesperador, o escritor apela para tudo. E haja café. E haja cigarro. E haja insônia. E haja paciência. A caneta já passeou por boa parte do corpo do escritor: da mão para a boca, da boca para detrás da orelha, da orelha ela sai para coçar a cabeça, da cabeça volta para a boca, da boca vai acabar jogada num canto qualquer, porque ele está em vias de desistir. É um pobre coitado. Sem inspiração, sem dinheiro, mal lido, muitas vezes mal interpretado e na maioria das vezes mal amado, e ainda pode acabar doente por conta dessa maldita caneta.
Será que sai um poema? Não, não sai. As rimas deixaram um bilhete dizendo que foram ali na esquina comprar um maço de cigarro e voltam só daqui a seis meses. E uma crônica? De jeito nenhum. Dona Crônica, preguiçosa que só ela, está neste momento dormindo e se for acordada ela deixará de ser uma dama e acabará arrumando uma confusão daquelas dignas das mulheres barraqueiras. Será que não sai nada? Não sai. A Inspiração tem espírito de moleque, daqueles bem boca-suja e mal-criado. Agora, por exemplo, o escritor, completamente exausto, olha para um canto da sala e vê a Inspiração, rindo da cara dele e ainda fazendo aquele gesto brasileiríssimo da mão espalmada batendo na outra fechada. O escritor anda vendo muita coisa. Precisa parar de ingerir essas substâncias proibidas. Se ele é careta, é melhor procurar ajuda médica. Coitado. Está até tendo visões. Precisa mesmo é ter uma vida social, já que seus melhores amigos, uns escritores igual a ele, como Lima Barreto, Jorge Amado, Machado de Assis e outros estão meio… meio…meio… como posso dizer? Estão meio mortos para sair para tomar umas cervejas. É nessas horas que o escritor se entrega. O dia amanhecendo e o papel em branco. Então ele usa o último recurso, que todos os escritores odeiam usar, mas sempre usam, devido à falta de inspiração ou a uma ressaca: escreve sobre a sua falta de inspiração.

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