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Prazer, Poesia

Ou Ainda I Wanna Be Black Thought

Curiosamente (ou nem tão curiosamente assim), minhas primeiras inspirações para fazer poesias partiram do mundo do Rap. Tanto que se eu der uma olhada nas primeiras coisas que escrevi, quando eu tinha uns 14 ou 15 anos, em muito tem a ver com o Rap. Um discurso até um tanto agressivo, a temática em sua maioria de crítica social, misturado com aquele espírito meio rebelde e contestador da adolescência, apesar, claro, de eu considerar o todo dessas minhas primeiras poesias fraco hoje, apesar de muito esforçado. Mas foi a partir daí que meu interesse pela poesia aumentou cada vez mais. Não é exagero nenhum dizer que Racionais Mc’s me apresentou Carlos Drummond de Andrade e Tupac me apresentou Vinícius de Moraes.
A música até hoje tem influência muito grande nas poesias que faço, e uma das minhas maiores influências – desde sempre, acho eu - é justamente o grupo de Rap The Roots. Toda vez que escuto uma música deles, lembro desses tempos em que eu engatinhava de forma um pouco mais séria (se é que o que eu escrevo já é algo sério…) no maravilhoso mundo da literatura. Ao escutar algumas faixas do álbum mais recente deles, “How I Got Overâ€, um filme passa pela minha cabeça. E me dá muita saudade!

Link para a minha música predileta desse último álbum deles:

The Roots, “Now or Never”

Eu Tava Pensando…

laerte

Ideias – sejam boas ou ruins – não tem hora, nem lugar para surgirem, disso todo mundo sabe. Mas tem horas em que a cabeça parece estar mais tranquila para pensar na vida. Eu mesmo costumo ter meus “insights†quando estou tomando banho, lavando louça, antes de dormir (ou dormindo mesmo), até mesmo no mercado. Não, eu não tenho nenhuma teoria científica para explicar esse fenômeno, do porque que comigo boa parte das minhas idéias surgem quando estou fazendo uma dessas coisas. Pode ser que umas são coisas chatas de fazer, ou é o contato da água que faz com que libere alguma coisa dentro da cabeça que faça a gente pensar, realmente não sei. Mas que é engraçado, é.
Já me flagrei pensando em coisas essenciais para minha vida enquanto estava no banho, por exemplo. Foi algo como “estou precisando trabalhar com o que gosto – deixa eu passar o shampoo, merda de cabelo grande –, essa vida não é para mim – cadê o sabonete? -,essa vida não ta me agradando – nem o cheiro do meu sovaco, cruzes!â€. É estranho porque a cabeça está ocupada com uma tarefa e você está focado com todas suas forças em outra tarefa completamente diferente.
E tem horas que conto minha fortuna lavando a louça, mesmo que eu só saiba contar até 17 e que minha fortuna não seja algo que passe de, sei lá, r$ 17. Muitos dos meus melhores textos surgiram naquele momento antes de dormir. Era algo como “essa idéia é muito boa, vou ver se lembro dela amanhãâ€. Músicas surgiram enquanto eu estava dormindo. Sonhei com elas, com todo o processo, desde escrever no meu caderno de rascunhos até tocá-la. Toda essa  dúvida talvez tenha alguma explicação psicológica, talvez seja uma espécie de “ato falho†da cabeça, não sei. O esquisito é que se eu tentar repetir esse hábito de pensar em outras coisas enquanto estou fazendo outras tarefas que não sejam essas que citei para vocês, a coisa fica muito complicada, constrangedora até, como aconteceu comigo há umas semanas atrás, numa fila para tirar xerox de umas provas. Foi mais ou menos assim que cheguei para o rapaz da copiadora:
- Boa tarde, xereca para mim?
- Quê?
- Opa, desculpa, xeroca para mim? Eu tava com a cabeça em outra coisa.
Por pouco ele não diz que eu estava com as duas cabeças em outras coisas. Melhor assim.
Por isso que falo que a cabeça é coisa muito estranha.

Memórias Infantis de Um Homem Infantil, 5

Cláudia. Esse era o nome dela. Era linda. Das minhas paixões platônicas foi a mais bonita, a que rendeu meus mais apaixonados poemas, e a maior esperança de eu vencer a timidez que vira e volta ainda me prejudica. Quando eu ficava do lado dela era mágico, eu sabia que não precisava indagar a existência de Deus, vida eterna, portão dourado, porque estava do lado de um anjo. Linda com seus cabelos negros cacheados, seus olhos castanhos, sorriso fácil (acho que foi a primeira que riu das minhas piadas sem graça!)… Ela era… Era…Linda.
Eu sentia que com ela podia ser diferente, porque do lado dela eu não me sentia menor, ela, diferente das outras, não parecia que estava num pedestal, mas vai saber, foi o destino que fez a gente seguir caminhos diferentes. Mas, mesmo assim, passados uns cinco ou seis anos que não a vejo, ainda olho com carinho as coisas que escrevi para ela, e que ela – feliz ou infelizmente, talvez ela não gostasse de poemas! - não viu. Mais do que o amor platônico “mais menos†(isso existe?) platônico, Cláudia foi uma musa daquelas. E uma das coisas que até hoje, anos – e alguns amores, platônicos ou não – passados, que eu tenho muito carinho e orgulho de ter escrito surgiu de uma gaveta numa tarde dessas, feito um convite. Um convite para lembrar de coisas boas. Aqui está:

Ao Meu Amor Platônico

Os seus olhos castanhos fascinam os meus
olhos tal qual hipnose, e eu dessa virose não tenho antídoto
Amo minha doença por ela ter o sorriso
mais belo, tão lindo e letal para um sujeito tímido

Não há vacina nem cura: meu amor ora melhora,
ora torna-me febril ao vê-la vindo, humilde graciosidade
proporcional aos meus sonhos… Incurável sempre e agora
Amo-te na saúde, doente terminal de felicidade

Se eu tiver que morrer agora que seja te amando,
para que a dor física seja ridícula frente ao amor platônico
e da loucura sã de te ver e fingir não te querer

O amor é forte a ponto de eu não estar suportando
essa doença perpétua do coração, meu padecer pouco lacônico
a ponto de amar-te e fingir não sofrer.

Rio de Fevereiro, 25 de setembro de 2004.

Poesia Numa Hora Dessas? (25)

(Depois de 48 anos, dois meses, 26 dias, 5 horas, 13 minutos, 34 segundos e alguns remédios de tarja preta, um poema! Só que escrito ano passado)

Inspiração

Haja paciência para te esperar!
Mais atrasada que relógio quebrado
E repentina como chuva de verão, Inspiração
Tu és cruel, muito cruel!
Sei que podes mudar o mundo
Mas não tire meu sono
Sei que podes causar suspiros apaixonados,
Mas se eu não estou enganado,
Tu és teimosa como uma mula,
Mas a mula sou eu
Porque sou mais teimoso e te espero,
E espero, e…Espero.
Se paciência desse medalha
Eu seria campeão olímpico
Mas sei que um dia
Meu poema será seu melhor abrigo.

Se tu és tão bonita e perversa como uma deusa do Olimpo
Não faça da minha vida uma tragédia grega!

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