Posts Tagged ‘saudade’

Eterno 10 da Colina

Vocês nem precisam me falar que ele não foi um grande exemplo de atleta, ou até mesmo de pessoa, mas quem nunca errou que atire a primeira pedra. Ele foi, é, e sempre será o meu herói no esporte. Desde que ele parou de jogar, as minhas quartas-feiras e domingos ficaram vazios, seja com ele jogando com a camisa cruzmaltina ou com qualquer outra. Edmundo foi um dos últimos românticos do futebol, pois cada frase ou atitude sua era digna de manchete. Ele, Romário, Renato Gaúcho, Túlio, eram jogadores que fugiam do óbvio, em tudo. Eram gênios. Pode ser que vocês achem que um ou outro foi bem melhor do que ele, isso eu nem discuto. Mas que ele é meu herói, ele é. Isso sim é indiscutível.
E a saudade bate quando me lembro dele com a 10 do Vasco. Ed era imprevisível, imarcável, genial e genioso. Driblava como poucos, tinha classe, demonstrava raça e intimidava os adversários com a 10 e com a faixa de capitão. E de quebra, jogava com aquela cara de quem está ali fazendo uma coisa fácil, ridícula, como os grandes jogadores que tive privilégio de ver jogar, como o Zidane (parecia que Zizou jogava de smoking, tamanha a classe), o Riquelme ou o Ronaldinho Gaúcho. Mas Edmundo é diferente, é dos meus, vascaíno. Apesar de ter uma mancha na carreira (quando jogou naquele timeco rubro-negro, com o não menos genial e genioso Baixinho), herói é herói. Ed é uma espécie de Macunaíma, um herói brasileiro, com seus defeitos, arroubos de ódio e vaidade, mas que na hora em que a coisa apertava, era só tocar a bola para ele que ele tratava de resolver o jogo. Eu confiava em Edmundo até batendo pênalti, veja só.
Alguns torcedores de outros times podem falar que eles tem mais títulos, que o time tem uma torcida maior, essas coisas de quem gosta de contar vantagem. Mas uma das coisas que eu mais tive o privilégio de ver na minha vida foi o Vasco ganhar seus principais títulos. Eu vi! Ninguém me contou que o Vasco nos anos 1990 fez barba, cabelo e bigode – de português, claro. E o que mais fico feliz é que Edmundo foi responsável – direta ou indiretamente – por esses títulos. Edmundo está para mim assim como Pelé está para o torcedor santista dos anos 1960. Que me perdoe o Rei, mas Edmundo, ao menos para mim, foi o maior.

Pequenos Adultos

Eu tenho a ligeira impressão que estou atravessando aqueles momentos de nostalgia, de achar que as coisas do meu tempo eram bem melhores do que as de hoje. Juro para vocês, não é implicância minha, as coisas realmente estão muito estranhas, isso para não dizer que estão piores. Eu não vou cometer a audácia de dizer que o mundo de hoje é uma porcaria. Sim, é uma porcaria mesmo, mas eu não vou ficar espalhando aos quatro ventos que nada presta, longe de mim! Mas que hoje esse mundo está estranho, ele está.
E uma das coisas que eu acho graça hoje em dia (isso para não chorar de raiva) é essa “inversão etáriaâ€, essa coisa de os mais velhos procurarem a eterna fonte da juventude e os mais novos desejarem queimar etapas e serem pequenos adultos. Eu nem vou falar muito dos vovôs que tinham tudo para aparecer lépidos e fagueiros num comercial do Viagra, com suas bengalas apontando para cima, invés de concordarem com a Lei da Gravidade. Fazer o quê, é o avanço da ciência deixando a velha guarda contente e com a disposição de um garoto. Deixa o pessoal aproveitar o segundo tempo da vida, eu não tenho nada a ver com isso. Eu fico espantado é com o fenômeno inverso, dos mais jovens - crianças inclusive! – apressarem as coisas e parecerem mais velhos. As crianças de hoje não tem a mesma inocência do meu tempo de criança, e isso tudo num intervalo de uma geração. Lembro como se fosse hoje, minha irmã com uns quatro ou cinco anos, com aqueles vestidos que a faziam parecer uma boneca, cheia de laços no cabelo, linda. E era comum ver isso. E eu não estou falando de quarenta anos atrás, estou falando dos distantes anos 1990! Muito tempo, coisa de século passado.
Hoje em dia, é normal vermos as crianças vestidas como miniaturas de adultos. Lembro que há um tempo atrás eu vi uma foto da filha do Tom Cruise (essa foto aí de cima!), de cinco ou seis anos, com salto alto. Não vou dizer que é culpa das crianças, coitadas. Os pais é que parecem que estão ficando sem juízo mesmo. Esses mesmos pais incentivam a criança a ter um comportamento inadequado para a idade delas (ensinam palavrões, danças erotizadas, entre outras coisas), e quando mais tarde a situação fica fora de controle, vão culpar qualquer coisa (a televisão, os amigos, blablabla), menos assumir a culpa pela criação dos próprios filhos. E, passada a infância, chegando na fase da adolescência, mais dificuldades, já que a situação há muito estará fora de controle. E dá-lhe gravidez precoce, abandono da escola (para quê que ela serve mesmo?), casamento precoce… Claro, não estou dizendo que uma criança que é criada nessas condições não será uma boa pessoa, que é certo que terá uma infinidade de traumas, mas há de se reconhecer que essa queima de etapas é um risco no desenvolvimento dessas crianças.
O que me deixa triste é que boa parte da minha geração que são os pais e mães dessa criançada de hoje. Fizeram alguma coisa com a gente nos anos 1990 para nos traumatizar para o resto da vida. Talvez tenham sido as roupas de criança que usávamos, sei lá. Traumático.

Poesia Numa Hora Dessas? (32)

Ou Ainda Um Pequeno Poema Para Um Grande Amor

Se estás longe, sinto-te perto;
Se estás comigo, sinto-me completo.
Te amo.

Memórias Infantis de Um Homem Infantil, 5

Cláudia. Esse era o nome dela. Era linda. Das minhas paixões platônicas foi a mais bonita, a que rendeu meus mais apaixonados poemas, e a maior esperança de eu vencer a timidez que vira e volta ainda me prejudica. Quando eu ficava do lado dela era mágico, eu sabia que não precisava indagar a existência de Deus, vida eterna, portão dourado, porque estava do lado de um anjo. Linda com seus cabelos negros cacheados, seus olhos castanhos, sorriso fácil (acho que foi a primeira que riu das minhas piadas sem graça!)… Ela era… Era…Linda.
Eu sentia que com ela podia ser diferente, porque do lado dela eu não me sentia menor, ela, diferente das outras, não parecia que estava num pedestal, mas vai saber, foi o destino que fez a gente seguir caminhos diferentes. Mas, mesmo assim, passados uns cinco ou seis anos que não a vejo, ainda olho com carinho as coisas que escrevi para ela, e que ela – feliz ou infelizmente, talvez ela não gostasse de poemas! - não viu. Mais do que o amor platônico “mais menos†(isso existe?) platônico, Cláudia foi uma musa daquelas. E uma das coisas que até hoje, anos – e alguns amores, platônicos ou não – passados, que eu tenho muito carinho e orgulho de ter escrito surgiu de uma gaveta numa tarde dessas, feito um convite. Um convite para lembrar de coisas boas. Aqui está:

Ao Meu Amor Platônico

Os seus olhos castanhos fascinam os meus
olhos tal qual hipnose, e eu dessa virose não tenho antídoto
Amo minha doença por ela ter o sorriso
mais belo, tão lindo e letal para um sujeito tímido

Não há vacina nem cura: meu amor ora melhora,
ora torna-me febril ao vê-la vindo, humilde graciosidade
proporcional aos meus sonhos… Incurável sempre e agora
Amo-te na saúde, doente terminal de felicidade

Se eu tiver que morrer agora que seja te amando,
para que a dor física seja ridícula frente ao amor platônico
e da loucura sã de te ver e fingir não te querer

O amor é forte a ponto de eu não estar suportando
essa doença perpétua do coração, meu padecer pouco lacônico
a ponto de amar-te e fingir não sofrer.

Rio de Fevereiro, 25 de setembro de 2004.

O Rio Perdeu Mais Um Carioca

Eu, pelo menos até o final deste texto, queria deixar de lado esse Rio de Janeiro de hoje, caótico, com violência, transito, favelização crescente, pobreza e outras mil mazelas, mas sei que não conseguirei. Mas arrisco. Quero relembrar o Rio de Janeiro de ontem.E meu ontem é ontem mesmo. Eu sou cria do subúrbio carioca. E até dez, 15 anos atrás por aqui, no subúrbio, se via as crianças jogando bola nas ruas, os mais velhos conversando nos portões com os vizinhos, os casais de namorados nas praças do bairro, o cheiro do pastel vendido nas feiras livres, dos clubes de bairro, as festas de rua no carnaval e na festa junina (ainda que já meio descaracterizada, tocando funk a noite toda) e outras coisas que sinto que perdi. Digo, não só eu, como toda a população do subúrbio carioca.Não, eu não sou tão velho assim. Eu tenho 22 anos. Mas ainda vi e vivi muita coisa boa nos subúrbios cariocas que, infelizmente, não vemos mais. Hoje não vejo mais nada disso, infelizmente. As ruas do Engenho de Dentro que eu cansei de andar tarde da noite sem preocupação nenhuma hoje estão entre as mais perigosas do Rio de Janeiro. As fábricas que eu sempre via no caminho quando ia visitar meus parentes no Jacaré ou no Morro do Adeus hoje são depósitos abandonados. Os lugares onde passei minha infância no Méier não existem mais. Até a rua outrora tranquila no Encantado onde morei dos sete aos 18 anos não é mais a mesma, provavelmente é reduto de mais uma facção criminosa ou de uma milícia. Nos cada vez mais distanes anos 1990 até existia violência, abandono e essas mazelas todas que vemos hoje. Para a economia brasileira, foi uma década de recuperação, mesmo que o bolo dessa recuperação não tenha sido dividido até hoje, mas as coisas estão cada vez mais difíceis. Num lugar onde temos mais medo da própria polícia, que por ser autoridade, se acha acima da Lei, ao invés de protegê-la, uma população chora suas pitangas e não é escutada - se é que algum dia foi. Se o pessoal da Zona Sul está pedindo isenção de IPTU por ter passado uma semana repleta de violência, imagine nós, que estamos abandonados a própria sorte há tempos, onde as ruas não tem nem iluminação pública adequada e vivem esburacadas e a mercê de políticos oportunistas.Neste momento eu choro por dentro. Choro porque sei que as coisas eram bem melhores, e nem eram tão boas assim. O Rio de Janeiro perdeu mais um carioca, e não porque ele morreu vítima da violência. O Rio de Janeiro perdeu mais um carioca porque estou com meu coração partido. O Rio de Janeiro sempre será a Cidade Maravilhosa, mas cada vez mais para esse caos só existem duas saídas: ou o Galeão ou o Santos Dumont.

Pif! Paf! Soc! Catapimba! Combo de Tristeza!

Serei sincero com vocês. Hoje acordei sentindo o coração apertado e pequeno como uma moeda de um centavo cortada ao meio. O que mais machuca o coração são dias assim. A gente diz que não sabe o que é, mas sabe. A gente diz que não é nada, mas é o que define o sentido da vida. A gente diz que vai passar, e até passa, mas volta. Diz que já esqueceu, mas é inesquecível. Nada pior que amar e ter a certeza de que não é amado. Tristeza. Muita tristeza. Eu acho que vou cortar meus pulsos agora. Droga. Só tem faca cega. Viver. Viver após mais uma morte. A morte do amor. De novo.

Paulinho da Viola - Pra Fugir da Saudade
(E eu não paguei os direitos autorais…)

Saudade
Você fez da minha vida
Uma rua sem saída
Por onde andou minha solidão
E hoje
Quando tudo é esquecimento
Uma flor sobrevive ao tempo
e se desfolha em meu coração
para aliviar meu sofrimento
O silêncio, meu canto de felicidade
Dentro de um samba disfarço o que ela me fez
Quero abrigar, no entanto,
Mais uma flor que renasce
Para fugir da saudade e sorrir outra vez
Saudade
Você fez da minha vida
Uma rua sem saída
Por onde andou minha solidão
E hoje
Quando tudo é esquecimento
Uma flor sobrevive ao tempo
e se desfolha em meu coração
para aliviar meu sofrimento


Mágoas de Um Bonzinho

Às vezes invejo os cafajestes, ainda mais que por mais que eu me esforce, nunca serei um. A vida real, crianças, é muito diferente do conto de fadas, não se iludam. O mundo não é dos bonzinhos. Não é, e nunca será. Os bonzinhos serão para sempre os carregadores de piano. O mundo é dos cafajestes. Eles dominam a cena política e roubam milhões dos cofres públicos, mas todos o amam, porque os cafajestes são do tipo “rouba, mas fazâ€. Se um bonzinho consegue chegar a um cargo público, ou não dura ou o povo vai ficar falando mal dele enquanto ele for vivo e depois dele morrer. O cafajeste, não. Tem estátuas, tem seus nomes nas principais avenidas, o lugar de protagonista na História. Aos bonzinhos restam uma nota de rodapé de página.
Os cafajestes é que são tidos como homens de verdade, essa não é a realidade. Penso que os cafajestes não têm a força de um bonzinho. Se você tem um amigo bonzinho, comece a reparar nele e escute sua história. Os bonzinhos são, na realidade, uns fortes. Com aquele jeito meio amargurado, mas sereno, de fala mansa, andando sempre meio cabisbaixo, tidos como lerdos, eles sim suportam as piores torturas. É o que chamamos no estudo da História de “História dos vencidosâ€. Eles não nasceram para brilhar. Em nada. Triste, não é? Aos bonzinhos restam as lágrimas, o sabor amargo da vida discreta e as piores mulheres. Sim, as piores mulheres. Os cafajestes sempre tiveram as melhores mulheres. Até as mais inteligentes se curvam a um cafajeste. Todas as mulheres falam que sonham com um homem romântico, com os pés no chão e que dê segurança. Teoricamente os bonzinhos reúnem todas as qualidades citadas e talvez outras não citadas por conta do horário e das crianças que lêem podem estar lendo este texto (pára de ler isso, criança! Vai jogar um videogame ou brincar de médico com sua prima! Escrever é coisa de bonzinho). Mas quem elas procuram? Os cafajestes. Reclamam que o cafajeste a levou para a cama, deitou e rolou, depois dormiu e de manhã elas ainda acordam sozinhas e depois o cara não liga mais, porém, como diz o ditado popular, “amor de pica é que ficaâ€. O bonzinho, coitado, fica na mão. Literalmente. Aos bonzinhos resta serem os melhores amigos. Coadjuvante. De novo.
Os cafajestes ganham em todas: são as estrelas do futebol, são os “pais do povoâ€, os chefes, os que podem ter qualquer mulher (qualquer mulher mesmo) e assim por diante. Os bonzinhos, bem, os bonzinhos são o resto.

Séria Série: Poesia numa hora dessas?

Sem mais, segue um poema, absolutamente sem nenhuma pretensão, implícita ou explícita:

Outra para a Saudade

Saudade mata como doença sem cura
Age como vírus desconhecido
É estrago que passa despercebido
Saudade é fato. Saudade é um fardo.

Saudade é brinde indesejado,
Saudade é última esperança,
Saudade tão grande que até cansa
Maldita palavra, dor que não sara.

Saudade é rua sem saída
Enorme como avenida
Suave como vento
Aliada do tempo

Saudade infinita
Saudade antagonista

Saudade é saudade.

Rio de Janeiro, 13 de Fevereiro de 2008.

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