Posts Tagged ‘violência’

Poesia Numa Hora Dessas? (22)

Lembrem-se

Lembrem-se de Carajás
e também de Vigário
Não esqueçam da Candelária
e de outros massacres menos cotados.

Rio de Janeiro, 22 de Setembro de 2008.

O Rio Perdeu Mais Um Carioca

Eu, pelo menos até o final deste texto, queria deixar de lado esse Rio de Janeiro de hoje, caótico, com violência, transito, favelização crescente, pobreza e outras mil mazelas, mas sei que não conseguirei. Mas arrisco. Quero relembrar o Rio de Janeiro de ontem.E meu ontem é ontem mesmo. Eu sou cria do subúrbio carioca. E até dez, 15 anos atrás por aqui, no subúrbio, se via as crianças jogando bola nas ruas, os mais velhos conversando nos portões com os vizinhos, os casais de namorados nas praças do bairro, o cheiro do pastel vendido nas feiras livres, dos clubes de bairro, as festas de rua no carnaval e na festa junina (ainda que já meio descaracterizada, tocando funk a noite toda) e outras coisas que sinto que perdi. Digo, não só eu, como toda a população do subúrbio carioca.Não, eu não sou tão velho assim. Eu tenho 22 anos. Mas ainda vi e vivi muita coisa boa nos subúrbios cariocas que, infelizmente, não vemos mais. Hoje não vejo mais nada disso, infelizmente. As ruas do Engenho de Dentro que eu cansei de andar tarde da noite sem preocupação nenhuma hoje estão entre as mais perigosas do Rio de Janeiro. As fábricas que eu sempre via no caminho quando ia visitar meus parentes no Jacaré ou no Morro do Adeus hoje são depósitos abandonados. Os lugares onde passei minha infância no Méier não existem mais. Até a rua outrora tranquila no Encantado onde morei dos sete aos 18 anos não é mais a mesma, provavelmente é reduto de mais uma facção criminosa ou de uma milícia. Nos cada vez mais distanes anos 1990 até existia violência, abandono e essas mazelas todas que vemos hoje. Para a economia brasileira, foi uma década de recuperação, mesmo que o bolo dessa recuperação não tenha sido dividido até hoje, mas as coisas estão cada vez mais difíceis. Num lugar onde temos mais medo da própria polícia, que por ser autoridade, se acha acima da Lei, ao invés de protegê-la, uma população chora suas pitangas e não é escutada - se é que algum dia foi. Se o pessoal da Zona Sul está pedindo isenção de IPTU por ter passado uma semana repleta de violência, imagine nós, que estamos abandonados a própria sorte há tempos, onde as ruas não tem nem iluminação pública adequada e vivem esburacadas e a mercê de políticos oportunistas.Neste momento eu choro por dentro. Choro porque sei que as coisas eram bem melhores, e nem eram tão boas assim. O Rio de Janeiro perdeu mais um carioca, e não porque ele morreu vítima da violência. O Rio de Janeiro perdeu mais um carioca porque estou com meu coração partido. O Rio de Janeiro sempre será a Cidade Maravilhosa, mas cada vez mais para esse caos só existem duas saídas: ou o Galeão ou o Santos Dumont.

Sinal Fechado


Já dizia Adriana Calcanhoto numa música em que não me recordo o nome agora que “cariocas não gostam de sinal fechado”. Verdade. Repare no pânico dos motoristas em ficar dois ou três segundos a mais num sinal por conta de um motorista que está mais a frente parado quando o sinal verde aparece. Buzinam como se o Flamengo tivesse ganhado um outro título mundial. Mas não é bem esse lado mal-educado dos motoristas cariocas que quero abordar agora, e sim o medo deles em ficar parados no sinal fechado.
Sabemos que, infelizmente, a violência está em todos os lugares da nossa cidade. É um fato. Mudamos nossos horários de diversão, ficamos mais preocupados com nossos amigos e parentes, com medo de não vê-los novamente, por exemplo. A violência se enraizou de uma forma tão alarmante (e assustadora) nas nossas vidas que o simples fato de ir na esquina comprar pão é um risco de vida. A indústria da violência, que cresce cada vez mais, ainda abrirá um plano de financiamento para o tanque de guerra próprio, sonho de sete entre 10 pais de família carioca (os outros três neste momento estão de malas prontas para um lugar mais tranqüilo, como Bagdá, Cabul, ou umas férias bem legais no Haiti). Agora passem a reparar nos sinais de trânsito da nossa cidade, a ânsia de sair dali por parte dos motoristas. Seus vidros insulfilm fechados, no conforto do ar-condicionado, mas no medo real do assalto. Ninguém que tem um pingo de juízo dirigindo quer ficar parado nos semáforos do Rio. As crianças que pedem um trocado ou os vendedores ambulantes são tidos como assaltantes em potencial. Verdade seja dita, não reparei isso agora, mas o fato de ver crianças em idade escolar pedindo uns trocados até altas horas da noite nos sinais amoleceu mais ainda meu coração de manteiga derretida. Ainda mais sendo um educador recém-formado. Não me assustam os assaltos nos sinais, até porque não tenho carro (momento hipócrita do texto). O que mais me assusta, e entristece, é esse fato a respeito dessas crianças. Um dia pode ocorrer uma fatalidade envolvendo essas crianças, que podem ser atropeladas, por conta do medo dos motoristas em serem assaltados, já que os carros simplesmente não estão parando nos sinais de trânsito por medo. Todos falam a respeito das tentativas de assalto que acabaram numa fatalidade para quem estava no carro. Espero não saber um dia de um atropelamento de uma dessas crianças. Não que a vida de um motorista não tenha o mesmo valor da vida de uma criança. Mas temos que mais olhar por elas. São tantos problemas a serem discutidos que os sinais de trânsito do Rio de Janeiro se reduzem a meia dúzia. Violência, desemprego e má-qualificação profissional e abandono. Os três maiores vilões das ruas cariocas.

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